Especial

Tão próximos, tão distantes
Penso no momento pelo qual passamos, uma fase de transição no comportamento das pessoas, aonde o esfriamento das relações cotidianas é uma tendência notável. Sempre se vê gente que não pede licença, não diz obrigado e evita as demais palavras gentis. Vejo certamente uma terra futura de adultos descorteses e jovens extremamente superficiais.
Com o poder aquisitivo da população crescendo torna-se mais fácil a conquista de bens materiais que satisfazem por si só a necessidade de entretenimento. Num ônibus, não é difícil notar a quantidade de pessoas imersas em seus pequenos mundinhos, tão reservadas, ouvindo um mp3 player ou rádio nos celulares com FM. Veja quantos fones prateados, modernos, nos ouvidos dessa gente. Até os amigos não conversam mais. Cada um com o seu aparelhinho na mão, curtindo a viagem de volta pra casa sem nem ao menos notar quem está do lado. Numa era onde vivemos a virtualização das identidades, é preocupante o quanto as pessoas podem se afastar umas das outras. Outro dia quando acessei meu Orkut, eu vi um recado de uma garota, vizinha minha, dizendo: "Oi, sou a irmã do fulano, MIM adicionar". Adicionei a menina, mesmo sem responder com um scrap. Quando voltei do trabalho, à noite, passei por ela na rua e ela nem me olhou, não disse uma só palavra. Uma vez eu vi no fantástico um casal adolescente de namorados, que se falavam mais pelo mensseger do que pessoalmente, só se encontravam pra trocar beijo na boca e presentinho. O papo mesmo era virtual, sem olho no olho, sem tremelique nas pernas e a voz falhando, como no meu tempo. Tempo em que o menino contava com um par de dedos descruzados, no jogo do "Beija-flor", e um "faz que série?" pra chegar perto das meninas, às sete da noite, nas calçadas da rua.


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4 comentários:

Stuart disse...

Taí uma coisa que observo é isso! Sempre que pego metrô, principalmente. Acho interessante ver as pessoas e imaginar infinitas possibilidades de vida e situaçoes que aquelas pessoas podem estar passando e penso que às vezes reclamo de barriga cheia. O que aquela mãe com criança no colo não trabalho para, por mais exausta que pareça, brincar com seu filhinho.

Será que aquele casal passa por muitos problemas? Passa, todo mundo passa. Você então se sente parte de um todo.

Mas por quê tanta gente se refugia nos seus mundinhos com seus mp3? Por que acham que só elas tem problemas!

Não acho isso errado, aliás, terapia musical é uma beleza! Saia na rua com seu sonzinho, e acene para pessoas estranhas, sorria para elas de acordo com sua música. "Ué, é um doido?"

Sim, um doido com certeza alguem pode comentar: "Um doido acenou pra mim hoje". Provavelmente essa pessoa vai lembrar e dar um sorrisinho. Pequenininho, mas talvez o único naquele dia. Perceba a diferenca.

Todos somos diretamente responsaveis pelo todo. Mas a gente teima em achar que o mundo se acaba só por que estamos com problemas...

argh, lemòn disse...

...o mal venceu, mas não é por isso que vou me unir à Ele.

A guria do "mim adicionar", merece um scrap e o link desse post, pelo menos vc vai estar fazendo alguma coisa.

PJM disse...

Eu cometo meus erros sim. Porém erros são perdoáveis quando ninguém se importa. Condeno o mal e pelo menos verdadeiramente não faço apologia dele.

Cissa Teixeira Oliveira disse...

Caraca, me senti velha agora... Sou desse tempo aí também, quando a gente reunia a "turma" pra conversar fiado na pracinha e tals... Deve ser por isso que não me adaptei aos foninhos de ouvido...