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Especial

Escuro, ou o Pessimismo

O Júlio nunca quis arranjar um segundo emprego, mas foram as desventuras do mau salário no primeiro, somadas ao acúmulo das necessidades do dia a dia, que o fizeram aumentar o sacrifício. Ele andou pelas lojinhas do centro, se desfazendo de seu orgulho antigo, e conseguiu a duro custo umas quatro horas como caixa numa loja de variedades, trabalho avulso, num lugar quase simpático, nada parecido com sua mesa de Auxiliar de Contabilidade, nada parecido com seu salário normal. Por sorte lhe sobrava esse tal espaço para outro trabalho de meio expediente, já que no escritório onde ele estava empregado fizeram um acordo com ele, funcionário com quase cinco anos na carteira, para que ele trabalhasse não mais do que o período da tarde, em função do grave momento financeiro vivido pelo negócio de importações. Ainda lhe fizeram a bondade de não cortar o lanche das cinco, um pão carioquinha com desalinhadas fatias de queijo, que pareciam ter sido cortadas com os dentes do cozinheiro, e um copo de suco artificial nos bons dias, nos ruins eram apenas bolachas sem graça e uma xícara de café mau feito.

Aquele tal momento difícil parecia não passar... Dia após dia, a única certeza que Júlio tinha é que de alguma forma estava sendo enganado pelos patrões. Pois como aqueles homens continuavam a pagar suas contas? Como compravam gasolina para seus carros, que vendidos gerariam o pagamento de alguns funcionários? Empregados vitimados pelo atraso dos salários. Os pobres coitados, aqueles até que eram homens bons, pacientes, tão passivos, esperando pelo retrocesso do infortúnio, a maioria com filhos pra criar, faculdade pra pagar e uma série de responsabilidades a serem honradas, coisas de quem se vê obrigado a fazer dívidas, vaidades influem muito nisto também. Eles agora são homens que trabalham tristes, chateados, sem amor algum pelo que fazem, num total estado de frustração. Lá existe vários como o Júlio, que é funcionário há bastante tempo, todos vivendo de especular soluções:

- Rapaz, esses caras tem que demitir a gente logo e pronto, ficam ai segurando a nossa carteira.
- Acho que não tem dinheiro pra pagar todo mundo, não.
- Pois é, nem pro salário tá dando, quanto mais pra rescisão.

Os patrões só apareciam com desculpas, nenhum deles se dirigia aos empregados pra fornecer qualquer ajuda, apenas um dinheiro mirrado pago no dia trinta, durante os últimos seis meses, uma espécie de salário abaixo da metade, uma ajuda de custo pra não levar os coitados ao total desespero. Das vezes em que algum deles levantava a voz pra buscar o merecido, só obtia mais e mais desculpas, regadas a uma extrema dose de dissimulação barata, quando os patrões choravam suas misérias na frente do corpo de funcionários. Diziam coisas desnecessárias, falavam de suas vidas pessoais, suas tristezas pessoais, a fim de conseguirem o apoio sentimental e a passividade daquela gente:

- Vai dá divórcio pessoal, infelizmente!

Mas aquilo tudo era coisa de falsos, e Júlio sentia essas superficialidades de muito longe. É tanto que ele não se permitia o silêncio escravo nesses instantes e seu coração já desgostoso lhe obrigava a falar:

- Seu Costa, nós não causamos os seus problemas, mas o senhor causou os nossos.

Ao que o velho se calava, buscando driblar a vergonha com um sofrido esfregar de mãos no rosto, rosto enrugado.

Já não dava mais, precisava de soluções imediatas, pois nenhum coelho gordo sairia daquelas cartolas velhas e tortas, os patrões eram somente migalhas fracassadas, vítimas da própria incompetência. Era um verdadeiro tormento aquela situação, chegar em casa e ter que dizer pra mulher que não tinha dinheiro, ouvir a sogra dizer que ele não prestava, ouvir a filha pedir quinze reais para o passeio da escola, tentar abraçar o cachorrinho e ele fugir sem lhe dar atenção. Nessas horas ele lembrava tristemente da própria irresponsabilidade, não planejou sua filha, foi morar com a sogra, casou muito cedo, desistiu da faculdade, nem se esforçou no segundo grau, era um dos piores moleques na quinta e na sexta série, e toda vez que sua mãe lhe deixava na creche era um monte de gritos e lágrimas pra perturbar as professorinhas. O que mais lhe doía era se deparar com a própria inércia, um homem grande cuja carteira profissional, sem a rescisão do atual emprego, lhe impedia de arranjar um novo serviço, um trabalho decente que lhe pagasse direitinho. Acabava tendo que viver naquela situação, obrigado a aceitar ajuda da sogra, que se gabava de ter criado dois filhos médicos e um professor, sogra de um fracassado e dona de uma língua impiedosa:

- Esse bicho aí num tem coragem nem de fazer um concurso. Também! Num passava de jeito nenhum!

Tudo de ruim lhe entrava no coração e Júlio já não saía mais do pessimismo. Ele agora fazia questão de esquecer toda aquela teoria de neuro-lingüística e lei da atração, que aprendera numa caríssima palestra que ele assistiu há um ano e meio junto com a esposa. Difícil é pensar no que é bom quando só se vê o que é ruim. Só lhe restavam os bons momentos da mulher, quando ela evitava os gritos e o estresse de sua biologia, chegava carinhosa, doce, o mesmo suave perfume de sempre, artifícios femininos que sempre despertam um homem masculino. Júlio não resistia àquela ternura, ainda que o substantivo lhe parecesse fora de moda, quase bobo, mas era assim que ele chamava tanta vida que emanava da mulher.

- Calma, meu bem, vai dar tudo certo.

Não há frase que emocione mais um homem do que aquela pronunciada cheia de carinho, nos lábios do grande amor, apesar de todos os pesares. O abraço sensual, o cheiro bom, o beijo quente no pescoço cansado, tudo lhe conduzia para longe de toda desgraça. Era impressionante como a Isabel permanecia sempre uma novidade, ao menos algo certo ele fizera na vida, encontrar um ser tão único, mulher capaz de se afastar, ainda que por um momento, dos contratempos de um casamento sem dinheiro para lhe fazer sentir um pouco de felicidade

- Pensa positivo, amor, e vai dar tudo certo.

Ele ouvia com respeito à companheira, que tentava acreditar naquelas teorias, mas ele deixava apenas que suas palavras corressem de um ouvido a sair no outro, apenas por consideração, mas já não suportava mais aquela onda de otimismo tão superficial. A moda é tão infeliz, muito mais do que a mediocridade dos homens ao criá-las. A situação difícil lhe rodeava tanto que lhe entupia o raciocínio, aponto de lhe acorrentar no mau humor, lhe deixando sem forças pra buscar um pouco de luz. Pra ele, aquilo tudo foi apenas a forma que alguém encontrou de ficar rico, dizia que de fato essas teorias só enriqueceram quem as criou, ou que de alguma forma deu dinheiro a quem as revendeu, como aqueles palestrantes que lhe arrancaram pra lá de duzentos reais por algumas horas de discurso emocionante.

Especial

De Madrugada
Uns espirros sucessivos acordaram o pobre do João, por volta das quatro da madrugada. O coitado sofria há muito tempo com a renite alérgica, agravada pela casa empoeirada, revistas velhas e um clima tão indeciso quanto mulher nova. Acordou atordoado naquela noite, parecia que o sono era pequeno pra fazê-lo voltar a dormir, grande demais pra deixá-lo andar direito. João se levantou, caminhou até o banheiro, irritando os olhos ao acender as luzes da casa, com a impressão de que cada lugar se distorcia sempre que ele voltava o olhar para um ponto diferente.
A fome dos que se acordam de madrugada é puramente animal, sem vaidades, ou minúcias: é apenas vontade de comer. Umas quatro bananas que amadureciam na velha cesta de plástico sobre a mesa, assediadas por insetos minúsculos, voadores, foram as primeiras vítimas daquele rapaz, um garoto de quase dezessete. Abriu a geladeira e tomou o que pode da caixa de leite, ainda tonto, quase não acordado. Dirigiu-se à pia da cozinha, abriu a torneira e deixou a água cair, pesada, forte, batendo no alumínio da pia, enquanto molhava devagar o rosto. Em tudo fez barulho, no arrastar da chinela, ao tropeçar numa cadeira à toa, ao assoar o nariz.
Quase dezessete anos, quase quatro horas da madrugada e, depois do rosto lavado, o sono de há pouco dera lugar a costumeira tara da idade: lembrara dos filmes pornôs. Caminhou até a sala da casa, tentando não fazer barulho, estava incerto, temeroso, achando que os passos descuidados de antes teriam, talvez, acordado sua mãe, cujo típico roncado ele não ouvia mais naquele instante. Chegou com êxito à estante da sala, onde, numa gavetinha qualquer, estavam os benditos filmes, que um amigo nunca mais pedira de volta.
A casa de João era pequena, paredes finas, ecos que denunciavam as atitudes noturnas, ampliados pela autoridade pesada de sua mãe intolerante. A esperança dele era o sono forte da família, principalmente o da mãe, pois o acordar dela seria, certamente, o mais prejudicial às investidas libidinosas do rapaz. Cauteloso, ele apertou o botão de ligar no controle remoto, rezando para que a TV não ficasse emitindo o zumbido estranho de sempre, defeito originado por umas gotas de água que, acidentalmente, respingaram prejudicando o aparelho. O fundo azul da televisão surgiu, e com ele o zumbido inevitável. Felizmente o próximo passo era menos temido, já que o DVD havia sido comprado há poucos meses, seu funcionamento ainda era pleno, o problema eram as pilhas, que ele tomava emprestadas do controle da TV. Assim, de posse apenas de um controle remoto, João inseriu o disco e se preparou, com todo o desejo que lhe restara na madrugada, apesar dos pequenos contratempos.
Os primeiros lances começaram, quando a triz americana surgiu, insinuante, voluptuosa, com tatuagens coloridas e excitantes marcas de biquíni, ela fazia gestos tentadores no cenário de uma sala de estar. O garoto assistia atento, se tocava, como todos os garotos sabem fazer, mirando o corpo da atriz, que era despido aos poucos, e ela, com um olhar atraente, direto ao expectador, provocava. João mantinha o ritmo, esticado no sofá, ele cobria-se com o lençol, na outra mão o controle do DVD:
- Se alguém se acordar eu aperto o stop.
Imerso no silêncio que se estabeleceu, João decidiu aumentar um pouco mais o volume do filme, pra dar mais realismo ao momento, para buscar mais emoção no ato. Foi quando o parceiro da atriz, sujeito com tatuagens bizarras e cara de uns trinta e tantos, surgiu na cena. João ia se sentindo desconfortável, à medida que o homem se fazia mais presente na cena, o rapaz se sentia meio criminoso e lhe assustava a ideia de alguém lhe flagrar daquele jeito: coberto pelo lençol e assistindo a filmes pornôs. João sentiu medo. Ainda mais quando um barulho rompeu o silêncio: um estalo vindo de alguma cama. Nesse instante o jovem teve a certeza de alguém se acordava lá dentro. Foi quando ele ouviu a voz de sua mãe:
- Vai dormir, João.

Especial


As Asas do Riso
A menina acordou de repente, sufocada com o som das asas que a engoliam em sonhos de uma cor muito cinza. Nem teve, porém, o tempo de compreender os acontecimentos todos que se lhe revelavam, pois que acabava de descobrir que engolira uma borboleta. Eram as asas que se sufocavam de entranhas escuras, e não o contrário – como lhe iludira o pesadelo.
Em princípios, sufocara-se. Sufocaram-se. Sufocaram-na. Tentou cuspir, tossir, mas as asas obstruíam todos os canais em que soprava o vento necessitado de fazer as curvas. Não teve outra escolha além daquela mais selvagem, a de engolir asas com borboleta e tudo em meio delas.
A criatura lepidóptera escorregou em tobogã apertado, por pouco não caiu em líquidos de coloração e odor suspeitos, quis voar de volta no caminho da luz e provocou a esvoação anárquica dentro da menina. As asas coçavam nas paredes do estômago, de repente cocegavam o fígado, num minuto já mexiam com os ares de tubulações quaisquer nos finalmentes do corpo. Quando nem se esperava a mudança, o caminho da fuzarca invertia-se, a trajetória avessa, e as cócegas eram sentidas em lugares mais amenos, como em alvéolos de algum pulmão ou lagos quaisquer de rins. Se chegava ao coração, o disparo na menina era maior que o susto da borboleta?
A menina remexia-se inteira, feito se fosse doida com todas as pedras que se pode contar em casos assim, nem sabia mais o que acontecia no mundo, que decerto sofria de alucinações muito graves em meio a sistemas irreais conluiados de astros imaginários – as estrelas inimagináveis. Se alguém visse aquilo, é certo que seria difícil de se explicar com argumentos de alguma lógica – que dança mais estúrdia era aquela que praticava em meio aos lençóis e de onde afinal vinha tanto lilás em pó.
No começo, nem no quarto arriscava-se em aventuras: alegou doença forte e alérgica, exigiu de si mesma o repouso absoluto sobre cama em cobertores graúdos. A borboleta mais ficava em descontrole dentro daquela quentura de prisão sem grades, estufa que dificultava seus flabelos. Esvoaçava-se de órgão a outro, entrava em canais labirínticos em busca de fuga, chegava a lugares tão cheios de falta de luz quanto os anteriores, tentava escapar dali também e voava em círculos – circunlóquios – os ciclos. Ficava doida também.
Sorte delas, somente que os tempos de primavera chegaram para a festa. O cheiro das flores novas – cujo desabrochamento tornava-se um caso de simplicidade muito artística – atraía a borboleta bem para a ponta do nariz da menina, que espirrava um pó roxo com tons de rosa e outras cores na escala do lilásico. Todo mundo sabe que o espirro é bem menos desagradável que o resguardo, por isso a menina aprumou-se e voltou a esbanjar os dias que havia de vida.
Notou que a borboleta se acalmava, satisfeita com os cheiros todos floridos que nem via – e as cócegas, agora, pareciam qualquer coisa entre uma nuvem de espelhos e uns acordes barrocos.
A partir daí, tornaram-se amigas. A borboleta anunciava com sobra de vôos se estava com fome ou sede, se queria passear ou dormir, se o calor a agradava ou a garoa entristurava. E a menina sabia sem titubeios todas as mensagens da amiga, e adivinhava-lhe com exatidão todos os desejos.
Um dia, viu um moço tão lindo que a borboleta quis vê-lo também: pela primeira vez voou bem para cima, foi parar lá nos olhos da menina e o moço nunca mais foi capaz de se esquecer daquela tragédia – os olhos que pareciam rosa na cor e piscavam que nem borboleta que bate as asas. Foi o primeiro a se conceber como vítima daqueles olhos esvoaçantes em cor roxosa. Muitos outros depois, desavisados, sofreram do mesmo caso estúrdio: hipnotizados para sempre pela menina dos olhos, quero dizer, pelos olhos de asa, ou melhor, pelas asas da menina.
Para ela, entretanto, a questão era mais grave, pois que toda vez que a borboleta subia aos olhos, assustava-se de tanta luz, apressava-se a fugir para o lado inverso – escuro – regiões quaisquer para lá do umbigo. Ia descendo até encontrar aconchego úmido e aquecido onde pudesse se acalmar. E a calma da borboleta era o desassossego da menina.
E aconteceu que uma vez a menina viu asas em olhos que ela mesma hipnotizava. E a borboleta também as viu e não soube se foi ofuscada pela luz dos ares ou pelas cores dos olhos. E desceu para os recantos calmos do umbigo e a quietude não a alcançava. E a menina foi sentindo um movimento cheio de cócegas que começavam no umbigo e transviavam para a espinha. E de repente se via obrigada a fechar os olhos e sussurrar qualquer grito de alívio. E percebia que estava era sem ar. E descobria qualquer coisa de extraordinária acontecendo em entranhas suas. E entendia que nem mais seria capaz de viver sem aquilo.
E foi aí que a menina nunca mais deixou que a borboleta saísse dali – jamais permitiria que um dia ela saísse de si.

Especial

"Outros que brincavam mais além
deixavam de brincar pra vir também
e cada vez mais crescia aquele batalhão de paz
Onde já marchavam mais de cem"
Roberto e Erasmo



A Guerra dos Meninos
Um novo bairro surgia ao redor da velha base aérea, junto com ele o começo dos anos 90, que não trazia muitas esperanças àquela gente, recém chegada de tantos lugares, principalmente do interior do estado. O bom era viver em casa nova, para a grande maioria, aquela nova vida representava o fato de se ter uma casa própria, tanta gente ali vinha fugindo de barracos abandonados e lugares tão horríveis de se morar. Diziam que o Ciro tinha conseguido todo o terreno, dando ao povo o direito de morar naquele pedaço.

Os primeiros anos foram se passando e, cada vez mais, o bairro se entupia de gente, no entanto, problemas antigos continuavam, muitas casas ainda não tinham nem água, nem esgoto, outras nem mesmo luz. As mulheres cruzavam as ruas, visitando a casa das outras em busca de água. Logo eram meninos e elas, carregando baldes por todos os lados, tentando amenizar as dificuldades, economizavam o pouco que conseguiam dessa dádiva. A luz ainda era nas velas, para todos aqueles sem instalação elétrica, com um natal após o outro no escuro. As lamparinas a gás manchando paredes sem reboco e o teto dos pequenos banheiros. Muitas ruas estreitas, deformadas, escuras, muitos malandros andavam por ali, lugares onde mal se via um telefone público.

As casas eram coladas umas nas outras, baixas, pequenas, a maior parte sem calçadas ou portões, apenas portas de duas bandas, janelas de madeira. As casas com luz tinham na frente o volume do medidor de luz, uma caixa de metal que se avolumava na parede pintada com tinta barata, no topo estava o mini-poste, de onde partiam dois fios tortos, balançantes, em direção aos altos e finos portes de concreto. Era aquela precariedade, a casa pequena, sem luz, sem água, que aumentava o número deles, e logo os expulsava de dentro de casa, onde não havia entretenimento, e eles ficavam nas calçadas, nas esquinas, falando da vida uns dos outros, revirando os cabelos das crianças, procurando piolhos na família, comentando as quantidades, mostrando, matando, como se fossem primatas.

A casa não segurava os meninos, que perambulavam soltos, livres pelos matagais ao redor do bairro, nos destruídos campos de futebol, campos de lama, cheios de pés de mamona. Viviam a correr, a se agrupar em caminhadas pelos bairros vizinhos, procuravam por árvores frutíferas, pés de azeitona, jambo ou goiaba, eram os mais comuns. Buscavam por carteiras de cigarro no chão, desmontavam-nas e as transformavam em cédulas, usavam todas em apostas no jogo de bilas. Esperavam a época de cada brincadeira, parte do ano compravam, trocavam ou emprestavam peões de madeira, com seus respectivos cordões, enrolando com força, fazendo os peões rodarem infinitas vezes no chão de terra batida. Durante as férias escolares era a época das raias, compravam linha, papel colorido e goma, de onde improvisavam um barato tipo de cola. Pisavam vidro até que virasse pó, com ele preparavam uma mistura com cola e resina, a fim de tornarem a linha da raia extremamente cortante, e assim, derrotar no céu os inimigos de brincadeira. Corriam atrás de coqueiros, os que tivessem palhas mais grossas e deles retiravam o palito, depois usavam facas pra deixá-los lisos. Faziam os mais variados tipos de raias, depois deixavam penduradas nos armadores de rede, esperando que a cola secasse e, no começo da tarde, hora em que os ventos eram os melhores, se agrupavam nos muros dos velhos terrenos particulares, ou nas pilhas de enormes canos de concreto armado, que a companhia de água e esgoto largara em algumas ruas desertas.

Logo aquelas crianças buscavam por diversões novas, tudo já era tão comum, tão explorado, mesmo à noite, quando grupos de rapazes entupiam as ruas, todos armados de alguma precária forma: eram as gangues, que com seus enxames faziam se esconder os moradores assustados. E os meninos, atrás de carros velhos, postes largos ou becos escuros, miravam os enormes bandos que desfilavam violentos, pareciam cheios de poder e força, com seus gritos, com seu barulho. Caminhavam para algum confronto com seus rivais, eram tantos que lotavam os quarteirões, por tarde parte eles surgiam e causavam certo medo, brotavam de algum lugar e de longe, da pontinha da rua, se podia ver quando eles surgiam, nessa hora todos se escondiam, aterrozidos dentro de casa, menos os meninos, que de algum esconderijo secreto, observavam, atentos, o passar das gangues.

De repente, os meninos queriam ser daquele jeito, começaram a se juntar em seus quarteirões, davam nomes aos grupos, que se apresentavam por siglas, nomeavam-se também, cada um com o mais esquisito dos apelidos. Não brigavam entre si, pelo menos não se matavam como as gangues originais, mas se separavam, dividiam-se. Apesar da divisão viviam em paz, pois eram só meninos, até que um certo dia, dois deles, amigos, vizinhos, combinaram uma luta entre os grupos: uma guerra. No dia seguinte estavam todos no local marcado, uma rua ladeada por casas, rua larga, lá seria o palco do confronto. Seus rostos, infantis, eram sérios, pés descalços e corpo empoeirado, estavam dispostos ao combate e se amontoavam dos dois lados, pequenas grandes gangues. Muitos daqueles meninos vestiam apenas seus velhos calções e do lado, preso ao cós, a arma para a guerra: mamonas.

- Quand'eu dissé "já" vai comessá!

E eu também estava lá, quando o ar daquelas ruas se encheu de raios verdes, que voavam nos céus do bairro de um lado a outro. Mais e mais garotos se juntavam aos dois bandos, corriam de casa, eufóricos, surgiam de toda parte, depois que a notícia da guerra se espalhou. Inimigos eram só amigos, quando mamonas de todos os lugares eram arrancadas, nos matagais, nos terrenos baldios, nos campos de futebol, nos quintais de avós e nos pés que insistiam em crescer na beira da estrada. Os meninos gritavam, e seus gritos, felizes, invadiam os arredores das casas e enchiam de vida aquele triste tempo de incertezas.

Especial

Briga em Sodalina
Quando o sol arde na cabeça daquela gente perdida, parece que eles todos enlouquecem, são ignorantes, nem sequer raciocinam a respeito das mínimas coisas. A terra é uma desgraça e eles mesmos não sentem – vivem, comem e dormem feito animais, que não calculam dias nem coisas importantes, típicas atitudes dos homens civilizados. Andavam com roupas destruídas, sorrisos doentes, com os pés acinzentados de tanta poeira das estradas sem asfalto. Pra todos os lados eles iam, rostos sujos, expectorando, lacrimejando e de cuspideiras nas calçadas, como se toda sua miséria vazasse através dos olhos, narizes e bocas. Diziam que aquela gente toda descendia de escravos, notava-se a pele marrom, escurecida pelo forte sol daquela terra, que obrigava os homens, fracos ou fortes, a penarem ainda mais em seus degradantes ofícios. Não havia muito que fazer em Sodalina, a terra era ruim para o plantio, o verde que havia ninguém queria cortar, a água o governo fez o favor de trazer pelos canos e fez ainda o favor de trazer os programas de distribuição de renda àquela gente. Parece que tal cidade só existia, lá depois de Quixadá, pra receber o Bolsa-família, pois a única agência bancária do município era uma casinha reformada e modernizada nos padrões do Banco do Brasil.

O povo era um bando de homens e mulheres sem noção, que adoravam tudo que viesse de fora. Agrupavam-se, como animais, simplesmente para acompanhar um carro velho que chegasse à cidade, trazendo as únicas novidades que eles pudessem ter. Admiravam tudo que fosse diferente, como o menino chamado Jonssu. Ele não era filho daquela terra, pelo menos não nascido lá, foi feito quando o pai se mandou pra São Paulo, um zé ninguém chamado Jão Papôco, homem que sabia o segredo dos fogos de artifício. Diziam que o Jão, nas terras paulistas, conheceu a lesada da Zelinha, mulher branquela, olhos mortos, magricela e aloirada, foi com ela, dizem, que gerou o menino Jonssu, que cresceu forte, alvo, de feições muito diferentes do povo de Sodalina, os olhos vivos, sorriso sadio, nariz menor e rosto limpo, pés limpos. Por onde passava era olhado pelas meninas, que viviam a lhe mandar cartinhas, declarações de amor, viviam de marcar encontros com ele, ao anoitecer, atrás das grandes mangueiras da pracinha. Ele todo era orgulho, mimado pela mãe branquela, querido pelas menininhas que o cercavam, deixando-o escolher quem quisesse pra namorar. Aonde chegava era bem atendido, ouvido, desejado. Aquele povo de pele escura amava o menino alvo, mais do que isso, sentia-se como ele, bonito como ele, por estar perto do rapaz.

Já o Zé-breu, todo mundo sabia, era um dos mais doidos, não se importava com nada, passava o dia na porta dos bares, nem bebia, todos sabiam disso, só ficava a perder tempo, pois não havia como ganhá-lo – sem profissão, tido como inútil. Zé-breu gastava o dia a mirar as meninas da cidade, que, ocupadas da vaidade e dadas aos namoros, viviam de cruzar as ruas de terra avermelhada, um bando de meninas enfeitadas, balançando as gastas saiazinhas de xadrez, na faceirice da juventude, sujando as chinelas de couro. O Zé-breu lá: assistindo ao passeio delas, mas nem era um menino, já estava pra lá dos trinta. O povo comenta em Sodalina que a vida dele é com as mulheres da dona Albetiza, que cobram o quanto o sujeito tem no bolso por um instante de satisfação carnal. Dizem que o Zé-breu, um dos que mais herdou traços negros, nunca teve uma mulher.

- Esta praga nunca teve cunhã! Aquilo é moço véi!
- É, ele nunca cazô, não.
- Também: num faiz porra ninhuma da vida.

Zé-breu, apesar do ócio, não fazia mal a ninguém, se dava com todo mundo, em toda a Sodalina não havia quem quisesse mal a ele. A única pessoa de quem o Zé-breu não gostava era o menino Jonssu, detestava sua pele branca, lhe invejava as menininhas, repudiava seus dez anos em São Paulo e o fato dele ter aprendido o ofício do pai.

- Égua, Zilmá, lá vem aquele meninu réi di novo.
- Quem, Zé-breu?
- U fí du Finado Papôco.
- Vixi, Zé-breu, num vai sê bexta naum, dex’u meninu.
- Ora, djabu! Eu rô lá mexê cum ninguém, carái.

A Zilmá sempre deixava o Zé-breu ficar na porta do bar, que ela herdou de um tio morto uns dois anos atrás; desde então, ela agüenta aquele bando de bêbados loucos e o Zé-breu cuspindo na rua, de pé, encostado numa das colunas do alpendre do bar, feitas com troncos de coqueiro. Ela voltou ao balcão do bar ao perceber que o Zé Pézim, um bêbado irrecuperável, já estava a cometer seus exageros outra vez. Se ela não cuidasse, ele sujava e quebrava tudo. No entanto, preocupada, ela ficou mirando o Zé-breu lá fora, já esperando que ele fosse mexer com o menino Jonssu, até que o garoto subiu na calçada do bar e gritou lá pra dentro:

- Tem quair ninguém, né, Zilmá?!
- Tem não, meu fí. Fim de mês é assim mermo.
- Bá né lugá di mininu, não.
- Vai pá merda, Zé-breu, and'ondi eu quisé, ó? Já tenho quair dizoito.
- Vai lá pu São Paulo.
- Vô mermo, ó? Ficá ven'um bexta qui nem tu, praga réa!
- Rapaiz, tu fala direito, tu é um meninu.
- Meninu u carái, seu porra! Doido réi! Vai procurá um-a rapariga, vai, punhetero!
- Punheteru é tu, fí da cachorra lôra!
- Seu féla da puta!
- S'eu fossi fí da tua mãe!



Os dois se atracaram em frente ao bar, bolando, ferindo as costas nas pedras do chão, se sujando na lama que escorria do bar, porrada na cara, o Zé-breu e o Jonssu já provando do próprio sangue, os dois de dente trancado, mediam forças como dois animais, cheios de ódio. Estavam quase se matando quando a Zelinha, que já esperava o pior, trouxe o Cabo Ferrerinha:

- Bó pará cum a putaria aí, seus baitôla! Arrente se agarr'é cum as quenga, seus bexta! Dois praga desse bolanu ai nu chão, parece cachorro doido!

E o povo de Sodalina, sujo nos pés e na cara, se juntou pra reparar o destroço, separou na base da força os intrigados, que ainda tentavam se destruir no chão, mesmo depois que o cabo Ferrerinha meteu a sola das botas nas costas dos dois brigões.

Especial

Abandonada
O casamento dela já não ia muito bem, com a certeza de adultério, a coitada já não encontrava forças pra segurar o marido. Tudo piorou depois que ele conseguiu um emprego novo numa empresa de serviços: mais dinheiro, mais mulheres. Ela desejou, muitas vezes, voltar a ser mais pobre, lá no tempo em que tudo tinha um pouco menos de traição. Agora a infeliz mal podia chegar perto do Adalberto, qualquer tentativa de carinho resultava num “Sai pra lá!” grosseiro, realmente tudo estava sem amor. Na cama era só pra dormir. Por raras vezes, na altura do décimo quinto ano de casamento, é que o marido ia lá fazer uma caridade à pobre da Janice, de luz apagada, depois de secar um vinho barato e apagar seu velho Derby. Não havia mais calores como na época do namoro, quando ela andava com as amigas, vestindo mini-saia e balançando o cabelo pintado de loiro, pelos bares do bairro.

Foi num desses passeios da Janice, que nos anos 90 usava o nome falso de “Érica”, que surgiu de repente um moço falante, de bigode longo e que não gostava das festinhas do momento. Homem perfeito, era até de família crente, tinha um irmão pastor. A calvície dos seus 25 anos lhe deixava até mais maduro, com cara de homem sério, tinha cara de pai. A mãe apoiou, o pai ficou contra o namoro:

- Esse bicho só tem cara de sonso.
- Ô pai-ê, eu gosto dele.

Passou quase 3 anos enrolando a menina, que nesse tempo já havia se aquietado, toda mudada pelo namorado Adalberto. Nada de roupa curta, o cabelo louro ele deixou, mas festinha todo fim-de-semana não mais e a mãe concordava:

- Respeite seu noivo, menina!

Fez tudo que queria com a garota antes de jurar amor eterno e incondicional na frente do padre. Amava, lá no começo amava, talvez... Dentro de um pequeno apartamento que eles alugaram no bairro do Siqueira, próximo ao rio, foi que o Adalberto começou a mudar, uns telefonemas suspeitos, umas constantes horas extras, e de repente o homem tava chegando em casa morto de bêbado na manhã dos domingos cristãos. Ano após ano o Adalberto foi se tornando outro homem, mais careca e mais mulherengo, dado a farras intermináveis que levavam embora boa parte dos rendimentos da família. A pobre da Janice passava o dia todo em casa se lamentando, ora ligava para a mãe, ora choramingava pelos cantos querendo o Adalberto, nada dele chegar, virou costume.

Outra madrugada de sábado morrendo numa manhã de domingo e lá vinha o Adalberto: acabado de bêbado. A coitada da Janice, com os olhos avermelhados do mau sono e da choradeira, descarregava um monte de gritos em cima do miserável.

- Agora, Adalberto?!
- Vai dormir, doida véia!
- Tu tá pensando o que da tua vida, Adalberto, tu gasta o dinheiro todim da gente cum rapariga, é?
- Que rapariga, sua doida? Tem rapariga, não!

Os vizinhos já estavam acostumados com essa rotina de brigas, o roteiro do casal já era conhecido: ele chegava de manhã, bêbado, e ela brigava com ele; depois ela começava a falar mais baixinho e ria, era ele agarrando ela na cozinha, depois daí os dois se calavam e não brigavam mais.

O Adalberto já não agüentava mais, era estragado, não sabia o que queria, o único filho que o casal teve, um menino, foi se embora pra morar com os avós. Depois disso o Adalberto decidiu largar a mulher após quase 18 anos de relacionamento.

- Pois vá, seu safado, vá morar cum as rapariga! Volte mais não!

E não voltou. Passaram-se semanas e ela mirando a rua pela velha janela do apartamento. Nada do Adalberto voltar pra casa, nenhum telefonema, nenhuma notícia. Ela começou a se desesperar, inventava de beber pra tentar se consolar, mas tudo que conseguiu foi aumentar a saudade torturante e uns calores que lhe atacavam o corpo, da falta que fazia o marido em casa. Um dia saiu correndo escada abaixo no prédio onde morava, totalmente embriagada, gritando e chorando, toda nua. Pobre da Janice, destruída pelo sofrimento e aumento de peso, tornada numa mulher muita mais velha, como se tivesse bem mais do que meros 35 anos. Correu pelas escadas assanhando os cabelos, nua, branca e gorda, sem noção do que fazia. Os moradores se assustaram e, com lençóis de todo tipo, socorreram a infeliz.

Continuava a beber, sozinha e cheia de calores, não se agüentava mais, gritava querendo o marido de volta e ele não voltava. Em poucos meses sua sanidade lhe havia abandonado, nada jovem, nada sadia, beleza nenhuma. Tudo que restou foi uma mulher solitária, apelidada pelos moleques do condomínio de “baleia tarada”, depois que ela começou a gritar no prédio que precisava loucamente de um homem.

- Tem macho aí não? Quem quiser é só vir comê! É só vir!

Não vinha ninguém.

Especial

Flávio

Muito tempo atrás, quando ainda era só um garoto, Flávio achou na rua um cão que desejou levar pra casa. Era um animal ainda filhote, um vira-lata abandonado, que ele conseguiu criar, escondido de sua avó, durante alguns dias. A velha não suportava animais, vivia brigando com todo mundo, Flávio sabia que ela não o deixaria criar o cachorro.

Flávio, aos 9 anos, cuidava de seu melhor amigo, que morava escondido numa casa de madeira improvisada. Aquilo não era seguro o bastante para Rufus, que gostava de latir demais. Não demorou muito e a dona Neuza descobriu o esconderijo.

- Ah, mas num vai criar esse bicho aqui, não!
- Deixa vó, ele já se acostumou. Deixa?

Insistiu e prometeu cuidar do bicho, quase chorou. Ela deixou, era o neto favorito, fazia tudo pra ele. Os álbuns de figurinhas que os fornecedores jogavam para a criançada na rua, num carro lotado de álbuns, nas manhãs da década de 80, só chegavam às mãos de Flávio porque a dona Neuza tratava de conseguir um pra ele. Flávio dormia até tarde no sábado, nunca nem sequer viu esse famoso carro, talvez nunca tenha existido tal carro, ele nunca soube. Ela costumava guardar pão d’água pra ele dentro da lata de farinha e entregava ao preguiçoso quando ele levantava depois das 10 da manhã.

- Meu filho, quem dorme muito vive pouco – dizia dona Neuza.

E Flávio levantava e corria direto para o quintal pra brincar com o Rufus. Todo dia era assim, muito apegado ao cachorro, que já completava quase 4 meses. Nem queria ir para a escola, só pra ficar correndo no quintal com o amigo. Porém, a amizade durou pouco, o cachorro adoeceu muito rápido e ficou isolado no quintal, muito debilitado, deixando claros sinais de seus estado: manchas de sangue que surgiram no abrigo do animal. Não tomou umas vacinas e isso foi o fim dele. Num sábado em que Flávio acordou cedo, caminhou até o quintal e avistou o seu querido amigo: corpo imóvel, vida ausente. Sofreu ao vê-lo morto. Mas dona Neuza não tinha dinheiro, alegou que nada podia fazer, alegou tristemente.

Passou muito tempo, mas Flávio conseguiu se conformar, só não pôde esquecer o velho amigo. Viu, várias vezes, no andar de diversos outros animais de rua, o semblante do seu amigo que se fora. Aqui e ali havia, de vez em quando, um cachorro como aquele. Num desses dias, ele soube a respeito de uma vizinha, que estava com vários filhotes recém nascidos. Foi visitar a mulher, Flávio já tinha 15 anos e ainda queria muito um cachorro. Ficou muito feliz ao ver que aqueles pequenos lembravam demais o seu amigo Rufus.

- Pode levar um, se quiser.
- Posso?

Cinco anos depois da morte de Rufus, Flávio tinha agora outro amigo, a quem ele quis tão bem quanto ao primeiro. Pôs-lhe, inevitavelmente, o mesmo nome, apenas acrescentou-lhe um número.

- Você agora é Rufus II.

Este segundo comia mais do que o primeiro, cresceu rápido comendo ração. Mas tinha um grave problema: adorava fugir para a rua. E dona Neuza continuava com suas reclamações, ainda que Flávio fosse o neto favorito. Foi numa dessas fugas do desobediente Rufus II que um carro escuro levou embora o jovem cão, de pouco mais de 6 meses.

Foram três longos anos sem querer saber de outro animal. Agora, aos 18, se preocupava com outras coisas, principalmente com o emprego numa empresa de serviços. Ele trabalhava quase todo dia, não havia fim-de-semana nem feriado, só tirava folga de 5 em 5 dias, pegava um domingo apenas por mês. Cuidar do chão dos outros não era tarefa muito agradável, mas foi tudo que ele conseguiu junto com seu diploma de segundo grau e um curso de informática. Numa das folgas que teve, recebeu a visita de um amigo que não encontrava há algum tempo: Júlio.

- Cara, eu tô com um cachorro lá em casa, minha filha insistiu, mas não dá mais pra criar o bicho não, ela é pequena e ele só sabe brincar de morder.
- Ela deve tá com uns 6 anos, né?
- É, faz é tempo que tu num vai lá em casa, a Claudinha tava falando.
- Rapaz, quando der eu vou, beleza?
- Tá certo, mas tu vai querer o cachorro? Tu dá mó valor a bicho, cara. Se quiser pode ir lá pegar.
- Pois pronto, cara. Eu tô aqui no sábado, passo lá.

Rufus III chegou com um ar elegante, como um cão de raízes nobres, era filho de uma fêmea de Pastor Alemão com um macho qualquer. Tinha a imponência de um cão caçador e a beleza dos ares que trazia de lobo. De focinho empinado ele mirava o nada, expondo os pêlos brancos que se alongavam nas laterais do pescoço, no dorso era quase todo preto, com leves tons em cobre, feito os traços da raça original. Apenas era menor, mas mesmo assim muito bonito. Era vistoso com o passar do tempo, quanto mais envelhecia, mais forte ficava. Completou uns 9 meses e cometeu um crime: mordeu dona Neuza. Foi num descuido dela, a velha tinha a mania de alimentar o cachorro com comida de panela e não parava de mexer no prato dele, ficava o tempo todo arrumando a comida do animal. Numa dessas vezes ele se zangou e mordeu-lhe com força a mão direita: sangrou bastante.

Flávio procurou outra pessoa disposta a criar Rufus III, muitos recusaram, até que ele encontrou um garoto de 14 anos cuja mãe permitiu criar o animal no pequeno quintal da casa. Deu-se o jeito. Ele fez tudo contra a própria vontade, é claro, pois adorava o animal. Porém, pensou que seria muito arriscado continuar com ele, preferiu se desfazer do bicho para proteger a avó, que já andava muito velha e teimosa. Ficou com medo de que acontecesse algo pior.

Flávio ia bem no trabalho, apesar de odiar limpar a sujeira dos outros. Lá ele fez umas amizades legais, amigos pra tomar uma cerveja nas sextas-feiras e o melhor de tudo: conheceu Lucinha. Uma morena de pouco mais de 19, novata na empresa, que fora transferida para o mesmo posto de trabalho que ele. Ficaram amigos num instante e, na semana seguinte, estavam de namoro. Tudo aconteceu muito rápido. Em dois meses Flávio largou dona Neuza e foi morar com a Lucinha, depois que ela insistiu muito.

- Vai deixar eu continuar dormindo sozinha, vai?

Envolveram-se demais, em pouco tempo eram marido e mulher, mesmo sem papel e bolo, mesmo sem padre. A casa era só de Lucinha, que ela herdou por sorte do avô doente, o velho ia dar a um filho dele, mas deu à Lucinha por ter brigado com o rapaz, só de raiva passou a casa para o nome da garota. A casa era pequena, só um quarto, mas tinha um quintal que era maior que o terreno da casa. Flávio, sentindo-se dono do lugar, lembrou do velho amigo. Pensou que havia liberdade suficiente para o querido Rufus III.

- Amor, eu tenho um cachorro.
- Aonde?
- Tá com um menino, perto da casa da minha avó. Vou buscar, viu?
- É, né?
- Pelo menos ele protege a casa quando a gente sair.
- Tá certo, traz.

Era notável a insatisfação de Lucinha diante da noticia da chegada de um cão. Ela tinha um pouco de medo de cachorros, mas tinha mais medo ainda de ladrão, por isso aceitou que o animal viesse. Infelizmente nada era fácil na vida de Flávio e de cada um dos Rufus. Ele voltou à casa onde havia deixado o III, tristemente descobriu mais um dano: III não estava mais lá.

- Tu deu ele pra quem?

Descobriu, tão decepcionado, que o moleque havia feito uma troca: um cachorro por um mini-game, desses importados que vêm com mais de mil jogos. Do outro lado da troca havia um senhor, esperto, que convenceu o moleque a aceitar o brinquedo, pois afirmava que precisava muito de um cachorro valente pra proteger um terreno que ele tinha. A mãe do garoto já não agüentava mais os latidos do Rufus III e tratou de despachar logo o bicho.

- Aceita, menino! Deixa o homem levar o cachorro.

Uma semana inteira tentando encontrar esse tal homem. Era difícil essa tarefa, já que Flávio só tinha uma folga a cada 5 dias, nos outros dias nunca conseguia encontrar o homem, esse sujeito nunca tava lá no endereço indicado pelo garoto. Lutou até que descobriu o telefone do tal homem:

- Eu sou o dono daquele cachorro, como é que eu faço pra ter ele de volta?

O homem se mostrou um tanto arrogante, homem brabo, sem doçuras ao falar, quase gritava durante o diálogo. Dizia que não e não, porque precisava do bicho, permaneceu irredutível, mas só no início, logo Flávio lhe ofereceu um dinheiro e o homem começou a se interessar pelo caso. Foi assim, num baita sacrifício, com um certo dinheiro, quase o salário do mês, que o pobre do Flávio reencontrou seu querido amigo.

- Vamo pra casa, Rufus.

Como era de se esperar de uma mulher como Lucinha, ora doce, ora escandalosa, Flávio teve que ouvir durante dias os insuportáveis gritos dela. Lucinha ficou transtornada ao saber do gasto.

- Foi quase teu salário todo por causa de uma porcaria dessas!!!

E Flávio sofria, sentava nos fundos da casa, sentava na porta da frente, mirando os que passavam, ao lado do querido amigo, que às vezes latia com um estranho ou outro. Lá de dentro, Lucinha soltava outros gritos, mandava o cachorro calar a boca. Dia após dia Flávio se refugiava ao lado de Rufus, estava inconformado, afinal, a casa era dela. Ficou triste e murmurou:

- Isso lá é vida, meu Deus?!

O cúmulo foi no dia em que ela se recusou a fazer o jantar do coitado, que chegara em casa cansado, dera um beijo nela, mas ela se afastou e ficou a mirar os cantos, ofegante.

- Olha, Flávio: a casa é minha e tu sabe que eu não agüento mais esse cachorro, hoje ele ia me mordendo.
- Cadê ele?
- Amarrei ele lá no quintal, num quero ele aqui mais não, você vai ter que escolher: ou ele ou eu.

Ela disparou tal clichê contra ele que, desolado, só baixou a cabeça, ainda ouviu a bendita a lhe jurar amor sincero e coisas do tipo, dizendo que precisava ouvir uma decisão, que só fazia isso pelo bem do casal. Mas aquilo tudo já havia sido o bastante, uma vida inteira sem nunca ter de fato podido ter o que mais queria. Viver assim não é ter vida.

Entrou no quarto e demorou lá dentro, depois tomou banho, correu ao quintal e preparou a coleira de Rufus III, botou uma mochila velha nas costas, na mão esquerda uma bolsa jeans desbotada e uma pequena sacola, na direita o velho amigo, só deu boa noite e passou direto para a porta da rua.

Ela deu um sorriso sem graça, meio de lado, quase sem acreditar na besteira que o marido estava fazendo.

- Hei, Flávio! Flávio, volta aqui! Eu te amo! Eu te amo...
- Até o dia do juízo, mulher!

Ele seguiu reto, sem olhar pra trás, com seu amigo do lado, olhava pra frente e fingia que não escutava aqueles gritos.

- Volta, Flávio! Vai embora não, meu amor...

E ele se foi, sem ouvir os últimos apelos suspirados da mulher.

Especial

Thomas, olhos verdes
Ele era só mais uma criatura abandonada que, ainda muito jovem, dormia pelos sujos esconderijos das ruas, junto com outros mais velhos que se revezavam para uma hora maltratá-lo e outra protegê-lo. Porém, ficava entendido, entre todos aqueles largados, que estas vezes de violência eram, na verdade, pura brincadeira de desocupados.

A mãe biológica largou Thomas quando ainda era tudo muito cedo pra ele, e seu pai, como tantos outros da espécie, nunca fez o papel devido. Foi-se embora bem antes de nascerem Thomas e seus irmãos. Terríveis coisas da existência, mal chegara o desmame e pai e mãe não mais havia para aqueles coitados. Thomas tinha uma irmã, conhecida até então por “Pretinha”. Ela teve mais sorte, rápido foi levada por uma família que se compadeceu da desgraça da pequena: dormindo no mato com um bando de machos, sendo ela a única fêmea por ali.

Um por um foram desaparecendo, mortos ou adotados, pois outros destinos não existiam. Thomas ficou por lá muito tempo, o último dos quatro irmãos, largado, até que uma gentil senhora, que morava ali perto, voltou sua atenção para o matagal onde Thomas vivia. A morada dele era apenas um mato brabo, que se erguia numa úmida e destruída calçada de um velho casarão. Ela viu uns movimentos dentro do verde, dois amigos que brincavam de luta. Naquele infeliz jardim, ela conseguiu perceber outro brilho verde: eram os olhos de Thomas. Perdeu-se naquele aspecto. Projetou-se de encontro ao matagal e, depois que Thomas largou a falsa briga, divertimento comum daquelas criaturas, ficou mirando o danado fixamente. Ele estava carente de um lar, de cuidados e de uma mãe. Ela estava carente de alguém de posse da infância. Completaram-se. Aquela gentil senhora levou o pequeno pra casa e, dando-lhe comida e água, deu-lhe o nome que já conhecemos: Thomas.

Uma notável rejeição, infelizmente, foi sentida pelo novo membro da casa. Os filhos da dona Elza, já adultos, não ficaram satisfeitos com a chegada dele, que dormia o dia inteiro. Aquela casa bem cuidada, um lar tão seguro, a nova vida era o fim de todo sofrimento: nada mais de ter que batalhar e mendigar comida todo dia. Por muitas vezes os moleques com pai e mãe lhe atiravam pedras quando ele perambulava nas ruas. Aquilo não mais existia, Thomas agora estava feliz e, depois de um bom tempo, todos na casa também ficaram, pararam de rejeitá-lo. Ele se tornara de fato um membro daquela família.

O pequeno cresceu e se tornou um jovem forte e saudável, disciplinado e obediente à sua mãe, dona Elza. Porém, um dia suas raízes de vira-lata gritaram pra ele. A lembrança do matagal talvez já não lhe aterrorizasse mais. Sentiu um forte desejo de provar outra vez daquele entorpecente chamado “liberdade”, o que na verdade era o tempero de sua natureza. Tudo por causa de um marginal de rua, amigo da antiga desgraça, que aparecera em seu portão como se o convidasse a reatar os laços de amizade desfeitos pela separação.

– Quem é essa criatura aí te chamando, Thomas? - Disse dona Elza já assustada.

Antes que o jovem respondesse alguma coisa, aquele marginal, de tão vivos olhos azuis, fugiu levando com ele o dividido Thomas.

Uma madrugada inteira de preocupações afligiu profundamente o coração de dona Elza.
– Onde andará o Thomas, meu Senhor?

Ele se fora no começo da noite e mesmo agora, quase cinco da manhã, ainda não havia retornado. Aquele marginal o levara e só Deus sabe de quem se tratava. Thomas poderia estar envolvido em crimes, poderia estar em perigo, com fome e com frio a essa hora. Diversas indagações se acumulavam na cabeça da dona Elza e a deixavam ainda mais preocupada.

A pobre da dona Elza ficou presa num triste ritual, deitava e não dormia bem, levantava-se e caminhava até o portão na esperança de ter um alívio, porém, nada mais havia além do silêncio do dia amanhecendo. Quando conseguia dormir, o coração atormentado lhe causava terríveis sonhos, nos quais o amado Thomas sofria torturas ou acidentes. Num deles, dona Elza corria numa longa e escura avenida perseguindo Thomas que, jovem, facilmente ganhava distância, enquanto ela corria cada vez mais lenta, sentindo as pernas gravemente pesadas. Acordou depois deste sonho e percebeu que as pernas estavam dormentes. Esticou-se até a mesinha do abajur e apanhou um copo d’água, molhou as mãos e assim curou a dormência.

O sono não vinha mais de jeito nenhum. Levantou-se e pediu a Deus que trouxesse o Thomas de volta. Foi até a cozinha e tentou buscar calma num gole de refrigerante que sobrara do almoço. Voltou para a cama e o corredor ficou escuro, junto com a tela do rádio relógio: faltou luz naquele instante. Ficou tentando se acalmar no escuro, ouvindo o som de um carro que se aproximava pelas ruas do bairro. Sabia que era o carro da SUCAN pelo zumbido da máquina lançando o fumacê e, mais tarde, pelo amargo perfume invadindo a casa. Virou pro lado e tentou dormir depois que o caminhão se foi.

Um frenético remexer de telhas perturbou dona Elza. Podia ser um ladrão, mas em pleno amanhecer? Ela se levantou assustada calculando que já passava de 5:30h. Correu até o portão mais uma vez e avistou um fugitivo gato siamês. Foi nesse instante que ela tristemente lembrou-se de um par de olhos azuis que levara embora seu amado Thomas, naquelas fatídicas 7 da noite. Curou-se da tristeza e, quase louca, sentiu o coração bater mais forte quando Thomas apareceu mirando o gato siamês que já dobrava a esquina. Dona Elza chamou o danado pra dentro de casa e o levou até à cozinha, já iluminada pela luz solar que invadia a casa atravessando as frestas das telhas.

– Você deve estar com fome, meu filho.

Ela ficou parada olhando pra ele e apontado para o recém preparado prato vermelho com o nome “Thomas” em letras brancas. Dona Elza encheu uma tigela de água e colocou ao lado do pratinho dele.

– Coma tudo, beba água e depois vá dormir, Thomas.

E ele apenas respondeu com seu infantil miado de sempre

Especial

Um par de sandálias novas
Só faltava mais um real e Vanilson teria o dinheiro pra comprar um par de sandálias novas. Ele, que passara duas semanas juntando dinheiro, já não agüentava mais a triste vergonha de andar com um par de havaianas surradas. Vez ou outra ele perdia a noção e dava uma topada, coisas de um desleixado, que costuma vagar pelas ruas mal-feitas do bairro, tantas deformidades resultam mesmo em belas topadas. Num desses acidentes o biloto do cabresto se soltava, ai lá vinha o constrangedor ritual de ter que se abaixar e consertar o chinelo quebrado. Pior eram os olhares dos que passavam e se perdiam naquela cena: Um adolescente envergonhado e suas sandálias velhas.

Apesar da pobreza, Vanilson mantinha a vaidade, se preocupava muito com a aparência e, por tanto, fazia qualquer sacrifício pra não andar por aí vestido de qualquer jeito. Por isso, tanto pesar por não estar bem calçado. Isso era mesmo coisa daquela idade, como é difícil ter 14 anos. Se adolescência já é difícil para um garoto comum, para Vanilson tudo era muito pior, pois não bastava o fato dele ser pobre, ainda tinha que agüentar as brincadeiras dos outros garotos, que constantemente se juntavam nas esquinas pra lhe zombar do jeito afeminado. Também pudera, o Vanilson só andava com mulher pra cima e pra baixo. Era só com meninas.

- Eu vou andar agarrado com homem, por acaso, seus bestas?!

E ele seguia ao som das vaias dos moleques. Só ganhava os costumeiros trejeitos dos rapazes da sua idade, quando um deles passava da conta e o coitado do Vanilson tinha que resolver na porrada. Nessa hora ele virava homem. Batia de verdade.

Faltava só um real. Vanilson decidiu esperar pela mãe que chegaria do trabalho lá pelas 10 da noite, quando ela chegasse, ele certamente teria o que faltava e pronto: comprava a chinela nova. Porém, tudo aconteceu um pouco diferente do esperado. Não sei porque, Vanilsom foi dormir mais cedo naquele dia. Pegou no sono antes das nove, assistindo TV. Parece que a novela lhe chateava demais quando exibida na época do horário de verão, ou talvez fosse a esperança que lhe desse sono. Adormeceu no sofá velho, nem se importava com a madeira saliente do sofá, que se projetava contra o ombro esquerdo. Ele só foi se acordar quando a mãe dele chegou. Ela abriu a banda de cima da porta e já puxava o ferrolho da banda de baixo quando o Vanilsom despertou do sono.

- Tu já tava amarrado no rabo da gata numa hora dessas, Nilsim?
- Foi não, mãe, é que eu cochilei.
- Cadê a chinela nova?
- Comprei ainda não, mãe.
- Valha-me Deus! Ainda num comprou esta chinela, Nilsim?
- Não, mãe - disse ele balançando a cabeça.

A mãe dele deu o bendito um real que faltava e, sonolento, Vanilson caminhou até uma rede que estava armada no quarto e se deitou, se cobriu com um velho lençol branco e, entre bocejos, disse:

- Amanhã vou comprar...

Oito horas da manhã e o Vanilson despertou. Estava tonto e preocupado. Procurou pelo dinheiro e lembrou que o havia guardado no bolso da bermuda com a qual dormira. Levantou-se apressado e nem fez os cuidados da manhã. Correu para a rua de qualquer jeito, com tão pouca vaidade, que só apertou os cabelos pra evitar o ar de assanhado e trocou de camiseta. Não quis nem saber do resto. Com tanta pressa ele, já ofegante, quase alcançava o destino. Chegou à uma pequena loja de variedades e pediu pra ver as sandálias. Olhou uma por uma e encontrou o que queria: uma verde e branco, tamanho 40. Era a única do tamanho dele. Tendo o precioso objeto na mão, correu sem poder segurar a euforia. Ele todo era felicidade. Retornou à casa e sentou-se no velho sofá da sala mirando o novo par de sandálias. “Estas chinelas são mesmo incríveis!” Isto era o que seu semblante parecia dizer. Ficou tão apaixonado por elas que largou as antigas num saco plástico junto com o lixo no quintal.

À tarde foi visitar as amigas de sempre, foi na casa da Bruna e ela não estava. Procurou pela Denise, pela Neide e recebeu a noticia de que as meninas se reuniam na casa da Eduarda, dirigiu-se até lá e esperou um tanto ancioso, estalando os dedos, em frente ao portão, depois que tocou a campainha. Uma agregada da casa, uma tal de Lucia, lhe recebeu fazendo perceber o chão que acabara de polir:

- Tira a chinela pra não manchar o piso – disse ela por cima do ombro.

Foi um ato quase triste, ter que largar algo que conseguiu na base de tanto custo. Caminhou até um tapetinho ridículo, à toa na passagem para a sala, e lá deixou seu precioso bem. Foi descalço até à cozinha, onde suas amigas estavam. Foi nessa hora que ele ouviu um latido, um latido fino, era de um poodle, Willy, que pertencia a Eduarda. Vanilsom conversava em paz quando viu o cachorro correr entres os visitantes, balançava o rabo cheirando as pernas de todos. De repente, o cão correu para a sala e pôs-se a rosnar como se mordesse algo. Nessa hora Vanilsom preocupou-se:

- Meu Deus, minha chinela!

E ele correu louco até a sala ficou inerte diante do que viu: o tal Willy destruíra um dos pés da sandália. Vanilsom não soube como reagir, abaixou-se contendo a raiva e a tristeza, apanhou o prejuízo e correu para a rua. Saiu andando apressado e pode-se ver que enxugou algumas lágrimas. Deu de cara com o caminhão do lixo, teve um mau pressentimento. Chegou em casa desesperado e correu para o quintal, depois de um gole d’água do filtro de barro.

– Que desgraça! Disse sozinho.

O lixo não estava mais lá. Correu o quarteirão de ponta à ponta, mas infelizmente nem se quer ouviu o barulho do caminhão. Era tarde demais: estava descalço. Sentou num banco qualquer construído no acostamento de uma larga rua próxima de sua casa. Ficou por lá, meditando na infelicidade que tivera. Mal comprara a droga da sandália e já estava sem ela.

- A porra desse cachorro véi – tristemente disse ele ao vento.

Ficou lá sentado pensando na desgraça, com o queixo apoiado na mão. De repente ele levantou a cabeça e viu que a Eduarda se aproximava, baixou a cabeça novamente e franziu o cenho. A duro custo segurou uma lágrima.

- Hei, Vanilsom, porque que tu foi se embora duma vez sem dizer nada?
- Ora mais. O teu cachorro destruiu minha chinela nova. Olha aqui, num presta mais pra nada – disse ele mostrando a sandália estragada pelo cão.

Ele ficou de cabeça baixa até que a Eduarda disse:

- Hei, menino, calma. A mãe me deu dinheiro pra comprar uma chinela nova pra ti.
Foi difícil, mas ele deixou um sorriso sair. Saíram, então, os dois abraçados procurando uma lojinha. Ela pedindo desculpas a ele e ele tentando fingir que não estava descalço.

Especial

Dois Dentes de Ouro
Foi pra se embelezar um pouco mais que dona Almerinda inventou de colocar uns dentes diferentes na boca. Substituiu o que precisava na velha dentadura e passou a exibir aos amigos e familiares um novo e dourado sorriso. Mas aquela moda não duraria muito para dona Almerinda, que já passara dos 60. O tempo, que não poupa ninguém, foi passando e, aos poucos, levando a coitada. Já quase não saía de casa. Envelhecia.

Era um domingo muito quente quando ela quis dar uma saída pra comprar umas tangerinas. Caminhou alguns quarteirões e se embrenhou no meio do povo que lotava o redor das bancas de frutas. Sufocada no meio de tanta gente, Almerinda foi passar mal em pleno alvoroço da "Feira dos Pássaros". Quis chegar até os aquários, pra ver os peixes ornamentais, mas tombou perto das bicicletas velhas e, ali mesmo, parou seu coração.

— Quem era a velhinha?

Uns papéis no bolso do vestido verde e branco, guardados com a identidade dentro de um transparente saco plástico, diziam quem e de onde era a Almerinda. A polícia ligou para a família e a tristeza se fez.

Na tarde do dia trágico chegou-se ao velório, puseram o caixão por cima de umas cadeiras de madeira emprestadas da vizinha. Foram receber as visitas curiosas, que adentravam a sala e examinavam cuidadosamente o que se podia ver da casa, quase não enxergavam o defunto.

— Ela parece que tá dormindo – disse uma senhora aos presentes.

E as mães imprudentes entravam com suas crianças, já nojentas de tão mal-cuidadas, e faziam as infelizes mirarem a morta.

Os vizinhos se lembraram dos dentes de ouro da velha. Alvoroço na rua. Aqueles objetos eram, aos olhos daquela gente miserável, uma verdadeira fortuna. Andavam de um lado pro outro os moleques da rua. Até mesmo os marginais, desconhecidos da família, foram e assinaram o livro de visitas. Examinavam a morta.

– Cadê os dentes?
– Dá pra ver não, doido! Ela tá de boca fechada.

Sussurros entre os moradores e todos de conversa ao pé do ouvido sobre o destino da suposta fortuna. E a família já pensando no que faria. Enterrariam a velha com aquele dinheiro dentro da boca? Isso nunca. Loucura! A Almerinda nem bem esfriara e eles já queriam arrancar os dentes da pobre. Mas algo tinha que ser feito, pois a casa começou a lotar e, num instante, todos secavam a morta. A idéia de um roubo surgia na mente de cada uma daquelas pessoas ali presentes. Os marginais lá fora já estudavam a casa e, caindo a noite, a família da Almerinda se preocupava ainda mais, pois a droga do enterro só seria no dia seguinte. Pelos menos ficaram um pouco mais tranqüilos ao verem os visitantes começarem a se retirar:

– Que fique com Deus, que vá para o céu!
– Se merecer, né?

Soprava o vento com força em rajadas preocupantes. Aflitos, os netos, filhos e demais parentes meditavam no destino dos dentes de ouro. Barulho no telhado, um ranger das telhas passou despercebido e uma fresta de luz, vinda da imensa lua, penetrou na sala vazia de móveis. Um bandido! Outras telhas removidas e só então aquela gente percebeu: um invasor subiu cauteloso pelo telhado e investia na busca pelos dentes preciosos. Dinheiro! O infeliz tentou descer uma perna e foi enxergado pelo filho da morta. Seu João tratou de reconhecer e expulsar o invasor que, assustado, desequilibrou-se telhado abaixo e despencou no chão feito um par de gatos brigões. Safado! Denunciado e agredido por alguns moradores. Aquilo tudo era aflição demais. Seu João não ia passar uma noite inseguro daquele jeito. Correu na cozinha e calçou umas luvas descartáveis, correu na sala e se pôs de pé na frente do caixão. Disse:

– Eu vou arrancar seus dentes, mamãe.
– Tá louco João? – disse o prudente irmão Chico – Deixa os dentes da mamãe!
– Louco é tu, Chico! Tu num tá vendo, não? Daqui a pouco esse povo invade a casa e leva os dentes dela!

Apesar do apelo, ele continuou o intento e preparou-se gravemente para aquela precária cirurgia. Tocou com cuidado, mais com asco do que com medo, o corpo da velha. Tateou os lábios e os abriu. Avistou dois incisivos dourados e bem colocados, que brilhavam na arcada superior. Forçou a mandíbula e lutou contra a rigidez cadavérica.

– Solta, mamãe, abre a boca!

Forçou um pouco mais e abriu na marra a boca da Almerinda, a ponto de se fazer ouvir um estalo dos ossos da face, possivelmente a se quebrarem. Assustada, a família em volta contemplava perplexa a remoção dos dentes. Ele usou um alicate qualquer, quase tão velho quanto a morta, mas conseguiu o fruto de seu quase macabro empenho.

Saiu pela noite sem mostrar os objetos a ninguém. Pegou um táxi na avenida e o destino foi a casa de um alemão, que negociava ouro há muito tempo no Brasil. Mostrou-lhe as peças e tristemente saiu de lá com alguns meros reais. O dono da loja disse que não lhe podia pagar mais do que aquela droga de ninharia. Voltou pra casa sentindo-se ultrajado pelo terrível sacrifício. Olhou para a família e entregou para a mulher os trocados que conseguiu. Voltou-se para o caixão e ficou a olhar a pobre banguela da Almerinda: um defunto de boca torta e que parecia estar dormindo.

Especial

...não se mete a colher
O Celso acordou bem cedo naquele domingo, por volta das 7 da manhã, quando já estava a remexer as ferramentas. Num grande balde plástico ele escolheu uma bermuda jeans já bem suja de graxa e uma camiseta da campanha do Inácio. Calculava o trabalho que teria com todos aqueles carros e meditou durante um gole de cachaça. Balançou a cabeça pensando que não daria conta de tudo a tempo se não trabalhasse aquele dia. Por isso, resolveu perder a folga e adiantar alguma coisa, uma solda, uma limpeza nas velas, o que não fosse demais, porém fizesse parte da maioria das necessidades dos clientes. O Celso bem que pensava que o dia seria como sempre só de trabalho. Começou então a se enveredar por entre caminhos de metal, óleo e graxa: perfeito. Ele já estava acostumado àquela bendita rotina desde os tempos de pivete, quando o pai lhe dava umas boas mãozadas nas costas pelo custo da desobediência. Acabou por se afeiçoar ao serviço, aprendeu com gosto a profissão e viu que tinha manha pra coisa. Virou mecânico. Fez várias vezes quando mais jovem, o trabalho de borracheiro. Mas isso foi coisa de uns muitos tempos atrás. Celso agora tinha a própria oficina e três bons ajudantes que executavam o ofício com destreza. Naquele domingo estavam todos em casa, curtindo o digno descanso dos mortais. Mas Celso estava lá, querendo trabalho.

Era uma fresta de luz do sol, que insistia em varrer lentamente a casa, e num instante qualquer daquela manhã fez brilhar bem forte o vidro de cachaça. O homem enxugou a desagradável gota de suor que quase lhe atingia os olhos e mirou a garrafa por entre uns tortos galhos de um baixo cajueiro à toa. Pensou no pai já defunto há uns 5 anos atrás e quase se recusou a beber, mas bebeu. Arrastou uma cadeira ao terreno da oficina e por entre os carros se pôs sentado a olhar a gente que passava na rua. Bebia tranqüilo, debaixo da sombra do telhado de amianto. Lembrou-se da Joana, a loira que lhe deixou 6 meses atrás e levou embora a filha do casal, uma criancinha de pouco mais de 3 anos. Pôs-se a beber sem parar, dose após dose, até que uns gritos de mulher atrapalharam o ritual.

Um tumulto se fazia na rua, alimentado por vozes escandalosas de moleques e o alvoroço dos desocupados. Num instante a rua estava lotado de curiosos a assistirem um homem trajando uns quaisquer farrapos e espancando a infeliz da mulher. Ela corria e ele a alcançava, derrubava a criatura no chão e visivelmente entorpecido agredia a mulher. Alguns comentavam que o casal morava ali por perto e que viviam de brigas depois da bebedeira. Trocavam acusações quando o álcool lhes roubava o juízo. Ela, que costumava se vender nas avenidas, jogava-lhe na cara, aos berros, o corno safado que ele de fato era. O marido ficava de cabeça torta a devolver as ofensas com severos tapas, juntamente com longas e contundentes descrições do passado de prostituição da companheira. Destruíam-se. Mas naquele dia, a mistura de uma droga barata com a cachaça de sempre fizera dos dois bizarras criaturas que se precipitavam nos deformados calçamentos da vizinhança. Tombou no chão outra vez, a mulher, e agora justo na frente da oficina.

Sentado em sua sobrevivente cadeira de plástico, o mecânico guardou na cabeça ainda muita lucidez e na garrafa ainda muita cachaça. Viu aquela mulher estendida no chão a ser pisoteada e pensou na lourinha. Ele nunca que faria um negócio desses com ela, já deixara escapar um tapa, é verdade, mais foi no calor da discórdia e foi só uma vez. Bater desse jeito numa mulher? Jamais! Ergueu-se com a coragem que a bebida lhe dera e quis vasculhar umas tralhas da oficina, de repente avistou uma larga tira de borracha, que provavelmente era um desses revestimentos por onde passa o vidro da porta do carro. Correu à rua a gritar pelo o miserável agressor. Jogou-lhe um palavrão e atingiu-lhe em cheio no meio das costas, arrancou do safado um tremendo gemido, que torto buscou fuga. Mais ágil que o desgraçado, Celso se empenhou no açoite e desferiu os mais fortes golpes que pode contra aquele homem. Era uma surra exemplar executada contra tal covarde sujeito, quando sem esperar, o herói das desamparadas ex-prostitutas foi atingido cruelmente com um resto de madeira que perambulava nas ruas. Um choque e um susto quando ele se virou pra se defender do golpe e um outro ataque ainda mais potente ele recebeu: "não bata no meu marido, não!" disse a mulher, que segundos atrás estava jogada ao chão, feito um cachorro morto, a ser chutada pelo marido que agora defendia. Celso indignou-se. Foi tudo em vão, afinal... Vão embora daqui, seus porras! Se não mato os dois! Vão embora! E o mais destorcido dos casais deste mundo começou a se retirar diante do frenesi da multidão que entupia aquelas ruas suburbanas.

Especial

Érica & Lorraine
As duas saíram confusas do cinema, depois de assistirem ao filme 23. O quarto piso do Aldeota estava lotado por causa do fim da exibição. Muitos adolescentes estavam por ali, frívolos e despreocupados a conversarem com os amigos. Érica arrastou Lorraine até o elevador panorâmico e se apertaram entre a gente da porta. Entraram a bordo completando o número máximo de pessoas. Mal havia espaço para que Érica manuseasse o Pop que trazia na boca. Ajustaram-se todos e o elevador desceu, provocando um leve frio na barriga, que a duas sentiram e dele logo se livraram no instante em que seus corpos se colaram um no outro. O peito projetado contra o da amiga fez Lorraine sentir-se além da amizade e bem perto do desejo. Os mamilos protuberantes de pouco mais de 15 anos se tocavam gravemente. Lorraine tinha o rosto próximo ao da amiga e sentiu seu hálito com o sabor do pirulito. Projetou-se pra senti-lo melhor e uma mecha descuidada e loira se soltou detrás da orelha e foi cair de encontro à branca Érica. Ela sentiu o perfume do shampoo de Lorraine e olhou fixamente para seus olhos castanhos, foi só um breve instante, baixou a cabeça. Érica não resistiu, imaginando a aceitação e a reciprocidade do desejo, abraçou a amiga dizendo-lhe pra esperar que todos saíssem e Lorraine atendeu. Porém, foi mais adiante, aproveitou pra sentir de pertinho o perfume da pele dela, parecia algo de jasmim. O elevador chegara ao andar do Pão de Açúcar, onde as jovens mães das meninas aguardavam fazendo compras. Notáveis senhoras da classe média, cada uma trazendo na mão a chave de recém trocado nacional 2007.
- Isabel, como ia te falando, vou ter que viajar até o Rio este sábado. A Érica detesta aquele lugar, disse Elísia mirando a filha que fazia um beicinho negativo.
- Entendo, respondeu a mãe de Lorraine.
- Por isso, minha querida, vou te pedir que deixe a Érica dormir na sua casa só hoje. Amanhã de tarde estou de volta e vou buscá-la.
Érica e Lorraine trocaram olhares fixos, que por dentro traziam uma mistura de medo e excitação. Estavam tensas, temendo que a Isabel negasse o pedido. Mas, Isabel consentiu tranquilamente.
- Perfeito, venha deixá-la assim que puder.
Elas se olharam outra vez, porém agora estavam novas pessoas. Pareciam um casal de namorados a bolarem o mais erótico dos planos.

No dia seguinte, as duas jovens estavam no quarto de Lorraine, escutando umas mp3 do SOAD e do Nightwish. No início, a luz ainda estava acesa, durante a visita ao Orkut. Jogaram um pouco de Top Gear, que a Érica conseguiu com um colega da escola. Então, ficaram livres depois que a mãe se aquietou com um copo de San Telmo gelado na frente da Rede Globo. O pai estava há quase dois anos no São João Batista. Trancaram mesmo a porta. Quem iria perturbá-las, se além delas só havia na casa a mãe bêbada? Foi nessa hora que Érica mostrou pra Lorraine a surpresa que prometera por telefone: quatro garrafinhas de Smirnoff Ice, o suficiente pra embebedar duas patricinhas de cabeça oca. No fim da terceira garrafa foi que rolou o primeiro beijo, quem se atirou foi a Lorraine. A essa altura, já não se sabia qual das duas era mais safada, porque já subiam para a cama Box coberta com um edredom branco, estampado de luas e estrelas azuis. Embriagadas e quentes, elas se iluminaram apenas do abajur com kanjis japoneses que representavam os quatro elementos. Érica arrancou as roupas da amiga e lhe beijava freneticamente. Lorraine empolgou-se e abraçou forte a amiga, quando um acidente aconteceu: Érica soltou um pum. Bem baixinho, mas soltou. Olhou fundo nos olhos da amiga e se envergonhou mais vermelha que um tomate. Encolheu-se e baixou a cabeça. Toda aquela embriaguez lhe deixara sozinha pra sentir a vergonha do descuido. Virou pro lado e se encolheu deitada. Não conseguiu dizer uma só palavra. Lorraine sentiu-se envergonhada também, mas só um pouco. Virou pro outro lado da cama e se deitou em silêncio. Ficaram lá caladas até que um bate-bate na porta lhes assustou:
- Meninas, a Elísia tá aqui.
A mãe de Érica veio lhe buscar de volta pra casa. Explicou que não pôde viajar por esse e por aquele motivo. Deixava pra fazer tudo no próximo sábado. E saiu pedindo desculpas e levando embora a calada e pensativa Érica. Lorraine deu apenas um tchau bem triste e voltou pro quarto. Esperou tudo acabar e, depois de um breve silêncio, uma forte gargalhada ecoou dentro do quarto.

Especial

Ovos Mexidos
Era mais um último domingo do mês, quando a passagem de ônibus custa apenas um real. Naquele dia Lucinha aproveitou e levou a pequena Adelaide pra tomar um pouco de sol perto do mar. Divertiam-se muito, mãe e filha na praia do Náutico. A parte ruim do programa era justamente a volta pra casa. Era péssima apenas a idéia de ter que compartilhar o ônibus com aquele bando de gente suja de areia da praia, que trazia pra dentro do coletivo um cheiro insuportável de cachaça misturado com o perfume de bronzeador barato e odor de picolé de morango. Andaram um pouco até a parada e esperaram por um Parangaba/Náutico. Não demorou muito e lá vinha um deles: lataria azul-claro e vidro fumê. Parou metros adiante de onde estavam Lucinha e a pequena filha, as duas tiveram que correr junto com outras tantas pessoas que ali estavam. Um grande alvoroço na porta traseira que tentava suportar tanta gente. Eram moleques gritando e velhos tropeçando. Havia um vendedor de água com seu isopor nos ombros no meio de mães queimadas de tanto sol, castigando com tapas suas crianças mal-cuidadas. Todos eles assustavam Adelaide.

Frenéticos estavam o movimento e o burburinho dentro do coletivo. Um tanto atormentado, o pobre do cobrador recebia as passagens na maior das velocidades, no entanto, aquele povo atrás da roleta não se acabava. E tantos banhistas lotavam o Parangaba/Náutico. Lucinha conseguiu passar em paz pela catraca e fez Adelaide passar por baixo, sentaram as duas lá pelo meio do ônibus, numa cadeira que comportou uma mamãe e sua filha no colo.

Foi numa parada logo adiante, bem depois de onde Lucinha subiu com a Dedê, ainda pertinho do mar, que subiram outras pessoas. Ente elas estava um homem já na faixa dos 50, trajando uma bermuda jeans, havaianas destruídas, uma blusa de botão aberta no peito. Ele tinha mais pelo no queixo do que na cabeça. Aquele homem era tão comum quanto qualquer outro ali dentro, apesar da barriga enorme que se projetava por entre os passageiros a subirem mais rápidos do que ele, deixando o coitado pra trás, foi o último a subir. E aí foi seu desespero. No meio de tanto barulho e lotação ninguém percebeu que aquele pobre homem ficara preso na porta. Gritou por socorro, mas sua voz foi sufocada pelo barulho. Ficou com seu infeliz destino entregue à indiferença. Revoltado, aquele pobre senhor tentou se libertar da porta que o oprimia severamente, deixou cair, no meio da aflição, os pertences que trazia nas mãos. Torturado, ele arranjou forças para gritar e pedir socorro. Nos primeiros gritos daquele homem Lucinha conseguia distinguir o que suas sofridas palavras diziam, foi então que ela tapou os ouvidos da Dedê e disse pra ela ficar quietinha. E o homem continuava a implorar por socorro, enquanto a multidão a lotar o ambiente ria-se de sua cômica desgraça, calaram-se um pouco mais no instante em que o ônibus parou num sinal vermelho e assim foi possível compreender um distorcido grito naquele abafado lugar: MOTORISTA, abre aporta, que ta esmagando os meus ovos. E todos voltaram a rir do coitado.

Especial

O Jarrinho de Flores
&
O Gato Português
Seguindo no vácuo do caso do “assédio moral” conto aqui o que ocorreu quando a entrada da agência do BANESPA foi liberada, depois que o protesto acabou. Peguei minha senha e fiquei esperando pela minha vez de ser atendido, foi então que uma senhora, de uns 60 e poucos, extremamente simpática, sentou ao meu lado. Ela me falou sobre o quanto admirava quem era capaz de protestar daquela forma, sobre quem buscava realmente seus direitos e levantava a voz. Reclamou de si própria, com um ar muito divertido, dizendo que seus protestos a vida inteira foram tão calados, eram aquela coisa passiva e de voz fraquinha. Enfim não eram protestos, eram só pedidos.
- A minha filha, não. Ana Cláudia sempre foi uma menina decidida, desde pequena. Não tinha quem escapasse dela porque ela brigava mesmo e reclamava sem medo.
- Humrum, respondi atento.
- Ela acabou se casando com um português que ela conheceu aqui em Fortaleza. Eles dois moram lá em Lisboa agora.
- Sei...
- Agente se fala todo dia.
- Ram
- Mas todo santo dia mesmo, disse aquela senhora de velhice agradável. Agente usa o Skype, eu tenho lá em casa e ela tem no apartamento dela.
- Olha só, a senhora é moderna então?
- Meu filho, eu ainda tenho medo, eu na verdade só sei ligar o computador e o Skype pra falar com a Ana Cláudia, não sei fazer mais nada.
- Entendo.
- Outro dia ela tava me contando que tinha um gato que todo santo dia ia à janela do apartamento e fazia cocô no jarrinho de flores. Todo santo dia este bendito gato ia lá ao jarrinho.
- Que gato danado, hein?
- E o marido dela já com raiva deste gato. Diz que ele chamava o tal do gato era de “Este gajo”, porque lá eles têm a mania de chamar os outros de gajo. Ai sabe o quê foi que ele fez?
- Não
- Ele fez um cercadinho de madeira e botou em volta do jarro. Quando o gato chegou lá que não conseguiu subir no jarro ficou louco. Diz que ele miava feito doido na janela e eles morrendo de rir do coitado. Ele não fazia cocô em lugar nenhum, Só no jarrinho dela.
Fiquei rindo com aquela senhora dessa inusitada situação. Tanto lugar pra este bendito gato vira-lata lusitano fazer suas necessidades e o infeliz só fazia no mesmo lugar: o jarrinho de flores.

Especial

Certa manhã quando fui fazer um pagamento numa agência do BANESPA, me deparei com um protesto liderado pelo sindicato dos bancários, contra a gerente daquela agência. Os manifestantes, alguns com camisas do Che, seguravam uma grande faixa vermelha com a seguinte frase em tinta branca: “Não ao assédio moral”. E muitos pedestres que por ali estacionavam ficavam se perguntando:
- Assédio? O que foi?
- Foi a gerente, uma mulher aí do banco.
- E como? Ela apalpou alguém?
De repente, o homem de microfone na mão berrou calando a multidão:
- Não aceitamos o assédio moral! Isso é uma atitude patronal! O gerente é um empregado como nós!
E as velhinhas, paradas nas calçadas, ainda mais intrigadas sobre o que de fato estava acontecendo. Até que o tal homem esclareceu a todos sobre o assunto:
- Assédio moral é crime, gente. Quando é que acontece? Ora, quando seu patrão lhe taca uns gritos! Quando ele te pressiona a ponto de você não agüentar e chorar, do jeito que essa gerente fez com essas moças aqui. Elas pediram demissão porque não agüentavam mais o comportamento dessa mulher, elas eram humilhadas constantemente, agüentavam gritos. E digo mais – Ela já veio de outras agências por causa dessa mesma prática.
- Ah, suspiraram as velhotas.
- Então quer dizer que se o patrão gritar com o funcionário é assédio moral, é?
- E xingar também, né?
- Eu pensei que fosse negócio de sexo.
- Vixe, ai ela tinha feito o quê com a pobre das moças?
O homem no microfone, cada vez mais enérgico, gritava todo inchado feito um baiacu excitado:
- Eu sei que o marido dela ta por aí, se escondendo, com o rabinho entre as pernas, só observando. Mas eu não tenho medo, não.
Nessa hora o som começou a falhar e só deu pra entender algumas frases desconexas como:
- Esses capitalistas que sugam o povo... A rede globo não... Viva a revolu... Viva Fide...
E blá-blá-blá. Não deu pra entender mais nada.

[NOTE 1]: Saiba mais sobre Assédio Moral

Especial

Tão próximos, tão distantes
Penso no momento pelo qual passamos, uma fase de transição no comportamento das pessoas, aonde o esfriamento das relações cotidianas é uma tendência notável. Sempre se vê gente que não pede licença, não diz obrigado e evita as demais palavras gentis. Vejo certamente uma terra futura de adultos descorteses e jovens extremamente superficiais.
Com o poder aquisitivo da população crescendo torna-se mais fácil a conquista de bens materiais que satisfazem por si só a necessidade de entretenimento. Num ônibus, não é difícil notar a quantidade de pessoas imersas em seus pequenos mundinhos, tão reservadas, ouvindo um mp3 player ou rádio nos celulares com FM. Veja quantos fones prateados, modernos, nos ouvidos dessa gente. Até os amigos não conversam mais. Cada um com o seu aparelhinho na mão, curtindo a viagem de volta pra casa sem nem ao menos notar quem está do lado. Numa era onde vivemos a virtualização das identidades, é preocupante o quanto as pessoas podem se afastar umas das outras. Outro dia quando acessei meu Orkut, eu vi um recado de uma garota, vizinha minha, dizendo: "Oi, sou a irmã do fulano, MIM adicionar". Adicionei a menina, mesmo sem responder com um scrap. Quando voltei do trabalho, à noite, passei por ela na rua e ela nem me olhou, não disse uma só palavra. Uma vez eu vi no fantástico um casal adolescente de namorados, que se falavam mais pelo mensseger do que pessoalmente, só se encontravam pra trocar beijo na boca e presentinho. O papo mesmo era virtual, sem olho no olho, sem tremelique nas pernas e a voz falhando, como no meu tempo. Tempo em que o menino contava com um par de dedos descruzados, no jogo do "Beija-flor", e um "faz que série?" pra chegar perto das meninas, às sete da noite, nas calçadas da rua.


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Especial

Rocheli

À tardinha, depois da escola, Rocheli ia jogar videogame ali perto de casa, pagava uma hora na locadora, o resto era por conta dos bestas, babando pela garota. Todos a queriam e ela não queria ninguém. Sem sutiã, ela aproveitava o vago ambiente da locadora pra apertar a blusinha de algodão contra os mamilos salientes: baba molecada. Ficava de bobeira na entrada da casa das amigas, encostada no portão em forma de grade, fazia um quatro pra se apoiar, como os malandros nos muros da esquina, com um pé no chão e outro na parede. Gesticulava muito quando conversava. Onde ela estava sempre havia meninos, doze ou treze anos, todos tarados pela Rocheli. De costas ela vacilava e como era de costume um deles dava uma dedada na coitada. Rocheli corria desembestada atrás dos safados, dava uns tapas, torcia os dedos dos infelizes, tudo pra salvar a moral, mas ela bem que gostava, lá no fundo ela gostava. Saía na rua empinando a bunda, vestindo um chortinho de lycra azul, todo colado. Andava de barriga de fora e decote farto. Tinha uns 14 anos, mas já tinha corpo de mulher, só a cabeça avoada é que era de piveta. Fazia a festa dos garotos quando ela formava uma fila inteira de meninos loucos por ela, lá no beco da padaria Alencar. E não ficava só nos beijinhos não, de mão em mão ela dava e recebia uns amassos improvisados, nada muito elaborado, eram só garotos medrosos, apressados pelos “vambora-vambora” uns dos outros. Mas ela deixava passar a mão aonde quisessem. A sem-vergonha adorava ver aquela fila de pivete se alongando por causa dela.
Rocheli estudava perto do centro, voltava de ônibus lotado todo dia, foi onde ela descobriu as “pinadas”, se acostumou. Depois de um tempo não usava mais a mochila nas costas pra não atrapalhar a investida dos rapazes gaiatos e ela mesma se metia na frente de um deles se o achasse mais bonito, forçava, não tinha jeito, o negócio era apertar a Rocheli ali mesmo, com todo mundo olhando. Pois ela nem ligava se o ônibus estava cheio ou vago. Falaram pra mãe dela sobre a história das pinadas, levou uns gritos da velha e uma surra-bem-dada do pai, lá no quintal. Era só mais uma. Afinal, todas as marmotas de Rocheli resultavam numa dessas surras de corda de nylon dobrada. Seu pai guardava essa corda desde o tempo da danação da irmã mais velha, namoradeira, que ele diz ter endireitado na base das chicotadas, depois que a rua inteira ficou sabendo como foi que ela perdeu o cabaço em cima de um caminhão velho. E com Rocheli, o pai disse que seria o mesmo remédio. Só que porrada não conserta gente ruim, pode até tirar arrocho de malandro, mas não transforma menina de fundo quente em santa de altar. A irmã dela só se aquietou porque pegou um bucho de um pilantra do bairro, seis anos mais velho que ela.
Foi quando Rocheli largou de vez as bonecas e os lençóis de ursinho que a pobre da Leonice, mãe dela, teve mais dor de cabeça com a menina. Leonice ficou sabendo pelos vizinhos que a filha tava gazeando aula quase todo dia. Andava diferente, nem no videogame ela ia mais. Ficava trancada no quarto muito mais tempo que de costume e quando ouvia forró não dançava mais, se requebrando toda. Cadê o balançado da bunda? A mãe e a irmã estranhavam o comportamento da menina por ter aparecido um belo dia cobrindo os peitos, largara os decotes sensuais por blusinhas mais fechadas, mantinha os braços cruzados enquanto falava, amassava os peitos de vez em quando pra escondê-los. Isso não era pelo tamanho, feito menina que tem vergonha de ter os peitos grandes. Ela os escondia pra mãe não perceber as marcas escuras na pele dos seios, deixadas por uma boca bem tarada. Quem deixou tais marcas de chupada foi um sujeito casado, um cobrador da linha do Henrique Jorge, pai de dois filhos tidos com uma neguinha ciumenta pra caramba, que certamente quebraria a pobre da Rocheli em duas depois de maltratar-lhe os beiços, o nariz, os curtos cabelos lisos, se descobrisse a traição. Não demorou muito e a fofoqueira da Nair, que era o cão pra saber da vida alheia, contou tudo pra Leonice, que em desespero abordou a filha:

- Rocheli, tu é doida, minha filha? Se essa mulher descobre, ela vem parar aqui pra te pegar! Meu Deus do céu, eu num criei você pra ser rapariga não, menina. Larga esse homem, Rocheli.

E Rocheli só ficou nas lágrimas, apaixonada por aquele cobrador. Ouviu a mãe e levou um tapa, continuou calada, só chorou. Leonice tentou se segurar, ela conteve-se durante aqueles dias e nada contou pro marido. Se ele soubesse, a desgraça tava feita: uma surra colossal e depois uma viagem. Ela não queria a filha longe, amava demais a menina, cujo pai certamente mandaria à Ibiapaba, pra ficar com as tias que a garota tanto detestava. Mantiveram o segredo.
Rocheli era realmente linda. Ela era branca, altura mediana, o nariz afilado, cabelos muito pretos, um rosto rosado que a deixava ainda mais sensual, os olhos castanho-claros combinavam bem com o sorriso. O corpo nem se fala, era menina-mulher que desfilava na rua e deixava os homens todos lhe mirando. Sempre de roupa coladinha, Rocheli deixou o cobrador Aírton obcecado por ela. Ligava pra menina todo santo dia. No celular da Rocheli diversas mensagens dele, apaixonado, dizendo que largaria a mulher pra ficar com ela. Não deu outra, Rocheli se entregou a esse homem e viveu essa relação proibida, até o dia em que seu pai descobriu tudo. Pegou a besta falando com o Airton ao telefone, ele ouviu tudo pela extensão. Fez o maior bafafá. Pressionou todo mundo, pôs a mãe e a irmã Gabriele na parede e as fez confessarem o caso. Inevitavelmente Rocheli tomou mais uma surra, por sorte não foi colossal, o velho já tava era cansado de dar na menina. Bater não adiantava mais. Quase enlouqueceu.
Numa sexta-feira, quando a garota chegara mais cedo em casa, da escola, Leonice e a filha mais velha receberam a pobre da Rocheli com um suco de laranja recém pronto:

- Bebe, menina, tu tava espirrando ontem. Bebe!
- Bebe, menina. Obedece à mãe.

E ela ingenuamente bebeu. Ingeriu uma porção traiçoeira, feita com um pouco d’água e o pó de um comprimido de Lexotan, misturada aquele suco. Gabriele convidou docemente a irmã pra se deitar em seu colo, pedindo pra pentear lhe o cabelo. Rocheli aceitou o convite amigável e pôs-se jogada no chão, com a face de encontro ao regalo da irmã, que sentada ao sofá movia cuidadosamente, pra cima e pra baixo, uma grande escova de plástico. Foram só alguns minutos desta cena e logo Rocheli adormeceu descuidada, tal qual fizera Sansão nos braços de Dalila, sem saber que duro golpe lhe aguardava. Quando a menina caiu no sono a mãe veio correndo afim de executar a segunda parte de seu plano, nascido de uma esperança quase extinta: cortar todo o cabelo de Rocheli. Deitaram aquela criança num tapete da sala e com uma grande tesoura de costura Leonice destruía a aparência da filha, enquanto Gabriele segurava aquele corpo dormente. De pernas e braços lânguidos, pálpebras semi-abertas, Rocheli estava além da capacidade de salvar-se, os lábios mudos da boca entreaberta haviam sido desprovidos da antiga sensualidade, pareciam agora entregues á falta de vida, pálidos e desprezíveis. Leonice cortou a maior parte do cabelo dela, então rápida alcançou uma máquina elétrica que usou pra raspar completamente a cabeça de sua criança.
Foi um entardecer melancólico, seguido de um anoitecer emudecido, de um silêncio gelado, profundo e constante, que durou até a hora do despertar de Rocheli. Ela acordara tão confusa, lá pelas nove da noite, a luz do quarto apagada lhe trazia a idéia de um lugar estranho a sua volta. Os pés frios tateavam o tapetinho de retalhos em busca dos chinelos fugitivos, os alcançou. Sentiu-se diferente, ainda de corpo dormente, sentiu frio e caminhou até o banheiro, despercebida pelas mulheres da casa. O silêncio ainda reinava pretensioso, seguro de seu lugar no trono, quando um choro tão sofrido ecoou naquela casa. Aos gritos Rocheli expressava horrivelmente a sua dor. As lágrimas não cessavam e desesperada a menina arranhava o próprio rosto. Dor e revolta lhe fizeram sentir que tudo aquilo na era real, não conseguiu suportar tal situação, olhar pra si mesma e encontra outra pessoa, deformada, sem os cabelos. Quebrou o espelho com os punhos e fez sangrar a própria carne. Leonice correu ao encontro da menina e arrependeu-se dolorosamente naquele instante, quando entrou no banheiro e viu outra imagem de sua filha. Aquela no chão de forma nenhuma era Rocheli.
Deitada em sua cama, um pouco depois do choque, Rocheli se lembrou da vez que entrou numa igrejinha de crentes, atendendo ao chamado de uma vizinha, e o pastor dizia algo sobre o choro durar uma noite inteira, mas cessar ao amanhecer quando alegria finalmente chega. Então se acalmou e permaneceu num choro mais suave. Meditava apenas a respeito do tempo que levaria pra ela ser a mesma pessoa novamente. No dia seguinte a tanta tristeza, o celular dela tocou e era quem ela esperava, o homem casado que ela enlouquecida amava. Os dias se passaram lentamente é claro, mais passaram. E pouco tempo depois, rocheli roubou da irmã um lenço de seda todo pintado. Tomou banho, arrumou-se, cobriu a cabeça, juntou algumas roupas e vingou-se da família, depois que todos de casa beberam da água que ela pôs na geladeira, tão enfeitiçada quanto o truque contra ela usado. Dormiram dopados e Rocheli fugiu. Foi se esconder com Aírton numa kitinete no centro da cidade, aonde ela jurava à si mesma ser feliz. Três meses depois Leonice amargurada cruzou com a filha próximo à Praça do Ferreira, correu e gritou pelo nome dela, que de imediato não ouviu. Correu um pouco mais e foi alcançá-la já em frente ao São Luiz. Na porta do cinema elas se abraçaram. Mil desculpas, entre lágrimas e beijos, a mãe pediu à filha, que também chorou copiosamente. Conversaram ali num banco vago:

- Volta pra casa, meu bem.
- Mãe não dá. Eu...
- Por que, Rocheli? Volta.
- Eu tô com o Aírton, ele largou a mulher. A mulher dele agora sou eu.
- Não tem mais perigo, minha filha.
- Tem não, mãe. Ela aceitou se separar dele, ficou com a casa e os meninos.
- E você, meu amor? Não vai mais pra escola, não? Eu pago.
- Vou, mãe. Vou voltar, se a senhora quiser pagar eu volto. Porque eu to trabalhando com a irmã dele, numa lojinha aqui perto, mas eu ganho bem pouquinho. É só pra ajudar em casa.
- E vocês tão vivendo aonde, Rocheli?
- Perto daqui. Numa casa agora, agente acabou de se mudar pra lá. A senhora quer ir lá?
- Pois vamo, meu amor.

Conversaram a tarde inteira na casa nova e voltaram a ser amigas novamente. Tudo se concertou, porque apesar de qualquer coisa, Rocheli sempre teve um bom coração. Conquistou com ele o pai de volta, depois de uns meses de fracassadas tentativas. Ele acabou deixando a menina ir lá com o marido fazer uma visita. Perdoou também a irmã Gabriele e juntas planejaram um almoço no domingo seguinte, sem mais remédios pra dormir. Riram-se e puderam ser felizes outra vez.