Especial

Escuro, ou o Pessimismo

O Júlio nunca quis arranjar um segundo emprego, mas foram as desventuras do mau salário no primeiro, somadas ao acúmulo das necessidades do dia a dia, que o fizeram aumentar o sacrifício. Ele andou pelas lojinhas do centro, se desfazendo de seu orgulho antigo, e conseguiu a duro custo umas quatro horas como caixa numa loja de variedades, trabalho avulso, num lugar quase simpático, nada parecido com sua mesa de Auxiliar de Contabilidade, nada parecido com seu salário normal. Por sorte lhe sobrava esse tal espaço para outro trabalho de meio expediente, já que no escritório onde ele estava empregado fizeram um acordo com ele, funcionário com quase cinco anos na carteira, para que ele trabalhasse não mais do que o período da tarde, em função do grave momento financeiro vivido pelo negócio de importações. Ainda lhe fizeram a bondade de não cortar o lanche das cinco, um pão carioquinha com desalinhadas fatias de queijo, que pareciam ter sido cortadas com os dentes do cozinheiro, e um copo de suco artificial nos bons dias, nos ruins eram apenas bolachas sem graça e uma xícara de café mau feito.

Aquele tal momento difícil parecia não passar... Dia após dia, a única certeza que Júlio tinha é que de alguma forma estava sendo enganado pelos patrões. Pois como aqueles homens continuavam a pagar suas contas? Como compravam gasolina para seus carros, que vendidos gerariam o pagamento de alguns funcionários? Empregados vitimados pelo atraso dos salários. Os pobres coitados, aqueles até que eram homens bons, pacientes, tão passivos, esperando pelo retrocesso do infortúnio, a maioria com filhos pra criar, faculdade pra pagar e uma série de responsabilidades a serem honradas, coisas de quem se vê obrigado a fazer dívidas, vaidades influem muito nisto também. Eles agora são homens que trabalham tristes, chateados, sem amor algum pelo que fazem, num total estado de frustração. Lá existe vários como o Júlio, que é funcionário há bastante tempo, todos vivendo de especular soluções:

- Rapaz, esses caras tem que demitir a gente logo e pronto, ficam ai segurando a nossa carteira.
- Acho que não tem dinheiro pra pagar todo mundo, não.
- Pois é, nem pro salário tá dando, quanto mais pra rescisão.

Os patrões só apareciam com desculpas, nenhum deles se dirigia aos empregados pra fornecer qualquer ajuda, apenas um dinheiro mirrado pago no dia trinta, durante os últimos seis meses, uma espécie de salário abaixo da metade, uma ajuda de custo pra não levar os coitados ao total desespero. Das vezes em que algum deles levantava a voz pra buscar o merecido, só obtia mais e mais desculpas, regadas a uma extrema dose de dissimulação barata, quando os patrões choravam suas misérias na frente do corpo de funcionários. Diziam coisas desnecessárias, falavam de suas vidas pessoais, suas tristezas pessoais, a fim de conseguirem o apoio sentimental e a passividade daquela gente:

- Vai dá divórcio pessoal, infelizmente!

Mas aquilo tudo era coisa de falsos, e Júlio sentia essas superficialidades de muito longe. É tanto que ele não se permitia o silêncio escravo nesses instantes e seu coração já desgostoso lhe obrigava a falar:

- Seu Costa, nós não causamos os seus problemas, mas o senhor causou os nossos.

Ao que o velho se calava, buscando driblar a vergonha com um sofrido esfregar de mãos no rosto, rosto enrugado.

Já não dava mais, precisava de soluções imediatas, pois nenhum coelho gordo sairia daquelas cartolas velhas e tortas, os patrões eram somente migalhas fracassadas, vítimas da própria incompetência. Era um verdadeiro tormento aquela situação, chegar em casa e ter que dizer pra mulher que não tinha dinheiro, ouvir a sogra dizer que ele não prestava, ouvir a filha pedir quinze reais para o passeio da escola, tentar abraçar o cachorrinho e ele fugir sem lhe dar atenção. Nessas horas ele lembrava tristemente da própria irresponsabilidade, não planejou sua filha, foi morar com a sogra, casou muito cedo, desistiu da faculdade, nem se esforçou no segundo grau, era um dos piores moleques na quinta e na sexta série, e toda vez que sua mãe lhe deixava na creche era um monte de gritos e lágrimas pra perturbar as professorinhas. O que mais lhe doía era se deparar com a própria inércia, um homem grande cuja carteira profissional, sem a rescisão do atual emprego, lhe impedia de arranjar um novo serviço, um trabalho decente que lhe pagasse direitinho. Acabava tendo que viver naquela situação, obrigado a aceitar ajuda da sogra, que se gabava de ter criado dois filhos médicos e um professor, sogra de um fracassado e dona de uma língua impiedosa:

- Esse bicho aí num tem coragem nem de fazer um concurso. Também! Num passava de jeito nenhum!

Tudo de ruim lhe entrava no coração e Júlio já não saía mais do pessimismo. Ele agora fazia questão de esquecer toda aquela teoria de neuro-lingüística e lei da atração, que aprendera numa caríssima palestra que ele assistiu há um ano e meio junto com a esposa. Difícil é pensar no que é bom quando só se vê o que é ruim. Só lhe restavam os bons momentos da mulher, quando ela evitava os gritos e o estresse de sua biologia, chegava carinhosa, doce, o mesmo suave perfume de sempre, artifícios femininos que sempre despertam um homem masculino. Júlio não resistia àquela ternura, ainda que o substantivo lhe parecesse fora de moda, quase bobo, mas era assim que ele chamava tanta vida que emanava da mulher.

- Calma, meu bem, vai dar tudo certo.

Não há frase que emocione mais um homem do que aquela pronunciada cheia de carinho, nos lábios do grande amor, apesar de todos os pesares. O abraço sensual, o cheiro bom, o beijo quente no pescoço cansado, tudo lhe conduzia para longe de toda desgraça. Era impressionante como a Isabel permanecia sempre uma novidade, ao menos algo certo ele fizera na vida, encontrar um ser tão único, mulher capaz de se afastar, ainda que por um momento, dos contratempos de um casamento sem dinheiro para lhe fazer sentir um pouco de felicidade

- Pensa positivo, amor, e vai dar tudo certo.

Ele ouvia com respeito à companheira, que tentava acreditar naquelas teorias, mas ele deixava apenas que suas palavras corressem de um ouvido a sair no outro, apenas por consideração, mas já não suportava mais aquela onda de otimismo tão superficial. A moda é tão infeliz, muito mais do que a mediocridade dos homens ao criá-las. A situação difícil lhe rodeava tanto que lhe entupia o raciocínio, aponto de lhe acorrentar no mau humor, lhe deixando sem forças pra buscar um pouco de luz. Pra ele, aquilo tudo foi apenas a forma que alguém encontrou de ficar rico, dizia que de fato essas teorias só enriqueceram quem as criou, ou que de alguma forma deu dinheiro a quem as revendeu, como aqueles palestrantes que lhe arrancaram pra lá de duzentos reais por algumas horas de discurso emocionante.

3 comentários:

Jardelino disse...

Essa situação é bem familiar pra muita gente!

Sessyllya disse...

Bom, de qualquer forma, cada um é resultado das escolhas que fez ao longo da vida... E cabe a cada um arcar com as conseqüências de cada uma delas... Esse texto é um belíssimo exemplo disso...

Parabéns!

Carlos Filho disse...

Não é a toa que entra em "Especial".
Realmente, um chute na costela! Um "reestart" pra vida.

Muito bom