Especial

Flávio

Muito tempo atrás, quando ainda era só um garoto, Flávio achou na rua um cão que desejou levar pra casa. Era um animal ainda filhote, um vira-lata abandonado, que ele conseguiu criar, escondido de sua avó, durante alguns dias. A velha não suportava animais, vivia brigando com todo mundo, Flávio sabia que ela não o deixaria criar o cachorro.

Flávio, aos 9 anos, cuidava de seu melhor amigo, que morava escondido numa casa de madeira improvisada. Aquilo não era seguro o bastante para Rufus, que gostava de latir demais. Não demorou muito e a dona Neuza descobriu o esconderijo.

- Ah, mas num vai criar esse bicho aqui, não!
- Deixa vó, ele já se acostumou. Deixa?

Insistiu e prometeu cuidar do bicho, quase chorou. Ela deixou, era o neto favorito, fazia tudo pra ele. Os álbuns de figurinhas que os fornecedores jogavam para a criançada na rua, num carro lotado de álbuns, nas manhãs da década de 80, só chegavam às mãos de Flávio porque a dona Neuza tratava de conseguir um pra ele. Flávio dormia até tarde no sábado, nunca nem sequer viu esse famoso carro, talvez nunca tenha existido tal carro, ele nunca soube. Ela costumava guardar pão d’água pra ele dentro da lata de farinha e entregava ao preguiçoso quando ele levantava depois das 10 da manhã.

- Meu filho, quem dorme muito vive pouco – dizia dona Neuza.

E Flávio levantava e corria direto para o quintal pra brincar com o Rufus. Todo dia era assim, muito apegado ao cachorro, que já completava quase 4 meses. Nem queria ir para a escola, só pra ficar correndo no quintal com o amigo. Porém, a amizade durou pouco, o cachorro adoeceu muito rápido e ficou isolado no quintal, muito debilitado, deixando claros sinais de seus estado: manchas de sangue que surgiram no abrigo do animal. Não tomou umas vacinas e isso foi o fim dele. Num sábado em que Flávio acordou cedo, caminhou até o quintal e avistou o seu querido amigo: corpo imóvel, vida ausente. Sofreu ao vê-lo morto. Mas dona Neuza não tinha dinheiro, alegou que nada podia fazer, alegou tristemente.

Passou muito tempo, mas Flávio conseguiu se conformar, só não pôde esquecer o velho amigo. Viu, várias vezes, no andar de diversos outros animais de rua, o semblante do seu amigo que se fora. Aqui e ali havia, de vez em quando, um cachorro como aquele. Num desses dias, ele soube a respeito de uma vizinha, que estava com vários filhotes recém nascidos. Foi visitar a mulher, Flávio já tinha 15 anos e ainda queria muito um cachorro. Ficou muito feliz ao ver que aqueles pequenos lembravam demais o seu amigo Rufus.

- Pode levar um, se quiser.
- Posso?

Cinco anos depois da morte de Rufus, Flávio tinha agora outro amigo, a quem ele quis tão bem quanto ao primeiro. Pôs-lhe, inevitavelmente, o mesmo nome, apenas acrescentou-lhe um número.

- Você agora é Rufus II.

Este segundo comia mais do que o primeiro, cresceu rápido comendo ração. Mas tinha um grave problema: adorava fugir para a rua. E dona Neuza continuava com suas reclamações, ainda que Flávio fosse o neto favorito. Foi numa dessas fugas do desobediente Rufus II que um carro escuro levou embora o jovem cão, de pouco mais de 6 meses.

Foram três longos anos sem querer saber de outro animal. Agora, aos 18, se preocupava com outras coisas, principalmente com o emprego numa empresa de serviços. Ele trabalhava quase todo dia, não havia fim-de-semana nem feriado, só tirava folga de 5 em 5 dias, pegava um domingo apenas por mês. Cuidar do chão dos outros não era tarefa muito agradável, mas foi tudo que ele conseguiu junto com seu diploma de segundo grau e um curso de informática. Numa das folgas que teve, recebeu a visita de um amigo que não encontrava há algum tempo: Júlio.

- Cara, eu tô com um cachorro lá em casa, minha filha insistiu, mas não dá mais pra criar o bicho não, ela é pequena e ele só sabe brincar de morder.
- Ela deve tá com uns 6 anos, né?
- É, faz é tempo que tu num vai lá em casa, a Claudinha tava falando.
- Rapaz, quando der eu vou, beleza?
- Tá certo, mas tu vai querer o cachorro? Tu dá mó valor a bicho, cara. Se quiser pode ir lá pegar.
- Pois pronto, cara. Eu tô aqui no sábado, passo lá.

Rufus III chegou com um ar elegante, como um cão de raízes nobres, era filho de uma fêmea de Pastor Alemão com um macho qualquer. Tinha a imponência de um cão caçador e a beleza dos ares que trazia de lobo. De focinho empinado ele mirava o nada, expondo os pêlos brancos que se alongavam nas laterais do pescoço, no dorso era quase todo preto, com leves tons em cobre, feito os traços da raça original. Apenas era menor, mas mesmo assim muito bonito. Era vistoso com o passar do tempo, quanto mais envelhecia, mais forte ficava. Completou uns 9 meses e cometeu um crime: mordeu dona Neuza. Foi num descuido dela, a velha tinha a mania de alimentar o cachorro com comida de panela e não parava de mexer no prato dele, ficava o tempo todo arrumando a comida do animal. Numa dessas vezes ele se zangou e mordeu-lhe com força a mão direita: sangrou bastante.

Flávio procurou outra pessoa disposta a criar Rufus III, muitos recusaram, até que ele encontrou um garoto de 14 anos cuja mãe permitiu criar o animal no pequeno quintal da casa. Deu-se o jeito. Ele fez tudo contra a própria vontade, é claro, pois adorava o animal. Porém, pensou que seria muito arriscado continuar com ele, preferiu se desfazer do bicho para proteger a avó, que já andava muito velha e teimosa. Ficou com medo de que acontecesse algo pior.

Flávio ia bem no trabalho, apesar de odiar limpar a sujeira dos outros. Lá ele fez umas amizades legais, amigos pra tomar uma cerveja nas sextas-feiras e o melhor de tudo: conheceu Lucinha. Uma morena de pouco mais de 19, novata na empresa, que fora transferida para o mesmo posto de trabalho que ele. Ficaram amigos num instante e, na semana seguinte, estavam de namoro. Tudo aconteceu muito rápido. Em dois meses Flávio largou dona Neuza e foi morar com a Lucinha, depois que ela insistiu muito.

- Vai deixar eu continuar dormindo sozinha, vai?

Envolveram-se demais, em pouco tempo eram marido e mulher, mesmo sem papel e bolo, mesmo sem padre. A casa era só de Lucinha, que ela herdou por sorte do avô doente, o velho ia dar a um filho dele, mas deu à Lucinha por ter brigado com o rapaz, só de raiva passou a casa para o nome da garota. A casa era pequena, só um quarto, mas tinha um quintal que era maior que o terreno da casa. Flávio, sentindo-se dono do lugar, lembrou do velho amigo. Pensou que havia liberdade suficiente para o querido Rufus III.

- Amor, eu tenho um cachorro.
- Aonde?
- Tá com um menino, perto da casa da minha avó. Vou buscar, viu?
- É, né?
- Pelo menos ele protege a casa quando a gente sair.
- Tá certo, traz.

Era notável a insatisfação de Lucinha diante da noticia da chegada de um cão. Ela tinha um pouco de medo de cachorros, mas tinha mais medo ainda de ladrão, por isso aceitou que o animal viesse. Infelizmente nada era fácil na vida de Flávio e de cada um dos Rufus. Ele voltou à casa onde havia deixado o III, tristemente descobriu mais um dano: III não estava mais lá.

- Tu deu ele pra quem?

Descobriu, tão decepcionado, que o moleque havia feito uma troca: um cachorro por um mini-game, desses importados que vêm com mais de mil jogos. Do outro lado da troca havia um senhor, esperto, que convenceu o moleque a aceitar o brinquedo, pois afirmava que precisava muito de um cachorro valente pra proteger um terreno que ele tinha. A mãe do garoto já não agüentava mais os latidos do Rufus III e tratou de despachar logo o bicho.

- Aceita, menino! Deixa o homem levar o cachorro.

Uma semana inteira tentando encontrar esse tal homem. Era difícil essa tarefa, já que Flávio só tinha uma folga a cada 5 dias, nos outros dias nunca conseguia encontrar o homem, esse sujeito nunca tava lá no endereço indicado pelo garoto. Lutou até que descobriu o telefone do tal homem:

- Eu sou o dono daquele cachorro, como é que eu faço pra ter ele de volta?

O homem se mostrou um tanto arrogante, homem brabo, sem doçuras ao falar, quase gritava durante o diálogo. Dizia que não e não, porque precisava do bicho, permaneceu irredutível, mas só no início, logo Flávio lhe ofereceu um dinheiro e o homem começou a se interessar pelo caso. Foi assim, num baita sacrifício, com um certo dinheiro, quase o salário do mês, que o pobre do Flávio reencontrou seu querido amigo.

- Vamo pra casa, Rufus.

Como era de se esperar de uma mulher como Lucinha, ora doce, ora escandalosa, Flávio teve que ouvir durante dias os insuportáveis gritos dela. Lucinha ficou transtornada ao saber do gasto.

- Foi quase teu salário todo por causa de uma porcaria dessas!!!

E Flávio sofria, sentava nos fundos da casa, sentava na porta da frente, mirando os que passavam, ao lado do querido amigo, que às vezes latia com um estranho ou outro. Lá de dentro, Lucinha soltava outros gritos, mandava o cachorro calar a boca. Dia após dia Flávio se refugiava ao lado de Rufus, estava inconformado, afinal, a casa era dela. Ficou triste e murmurou:

- Isso lá é vida, meu Deus?!

O cúmulo foi no dia em que ela se recusou a fazer o jantar do coitado, que chegara em casa cansado, dera um beijo nela, mas ela se afastou e ficou a mirar os cantos, ofegante.

- Olha, Flávio: a casa é minha e tu sabe que eu não agüento mais esse cachorro, hoje ele ia me mordendo.
- Cadê ele?
- Amarrei ele lá no quintal, num quero ele aqui mais não, você vai ter que escolher: ou ele ou eu.

Ela disparou tal clichê contra ele que, desolado, só baixou a cabeça, ainda ouviu a bendita a lhe jurar amor sincero e coisas do tipo, dizendo que precisava ouvir uma decisão, que só fazia isso pelo bem do casal. Mas aquilo tudo já havia sido o bastante, uma vida inteira sem nunca ter de fato podido ter o que mais queria. Viver assim não é ter vida.

Entrou no quarto e demorou lá dentro, depois tomou banho, correu ao quintal e preparou a coleira de Rufus III, botou uma mochila velha nas costas, na mão esquerda uma bolsa jeans desbotada e uma pequena sacola, na direita o velho amigo, só deu boa noite e passou direto para a porta da rua.

Ela deu um sorriso sem graça, meio de lado, quase sem acreditar na besteira que o marido estava fazendo.

- Hei, Flávio! Flávio, volta aqui! Eu te amo! Eu te amo...
- Até o dia do juízo, mulher!

Ele seguiu reto, sem olhar pra trás, com seu amigo do lado, olhava pra frente e fingia que não escutava aqueles gritos.

- Volta, Flávio! Vai embora não, meu amor...

E ele se foi, sem ouvir os últimos apelos suspirados da mulher.

2 comentários:

Cissa Teixeira Oliveira disse...

Às vezes me sinto que nem o Flávio... Espero há tanto tempo por algo que eu adoro e não dou um jeito de realizar logo a coisa...

A gente demora demais a enxergar o que deve ser visto...

Parabéns pela edição, Jorge! Mais uma vez, muitas risadas pra descontrair e alegrar os leitores e muitas reflexões pra exercitar o pensamento.

Bjos!!!

Dallas disse...

caralho q historia em !
quero saber oq aconteceu com flavio depois viu maxo !

vlw !!!