Especial

Dois Dentes de Ouro
Foi pra se embelezar um pouco mais que dona Almerinda inventou de colocar uns dentes diferentes na boca. Substituiu o que precisava na velha dentadura e passou a exibir aos amigos e familiares um novo e dourado sorriso. Mas aquela moda não duraria muito para dona Almerinda, que já passara dos 60. O tempo, que não poupa ninguém, foi passando e, aos poucos, levando a coitada. Já quase não saía de casa. Envelhecia.

Era um domingo muito quente quando ela quis dar uma saída pra comprar umas tangerinas. Caminhou alguns quarteirões e se embrenhou no meio do povo que lotava o redor das bancas de frutas. Sufocada no meio de tanta gente, Almerinda foi passar mal em pleno alvoroço da "Feira dos Pássaros". Quis chegar até os aquários, pra ver os peixes ornamentais, mas tombou perto das bicicletas velhas e, ali mesmo, parou seu coração.

— Quem era a velhinha?

Uns papéis no bolso do vestido verde e branco, guardados com a identidade dentro de um transparente saco plástico, diziam quem e de onde era a Almerinda. A polícia ligou para a família e a tristeza se fez.

Na tarde do dia trágico chegou-se ao velório, puseram o caixão por cima de umas cadeiras de madeira emprestadas da vizinha. Foram receber as visitas curiosas, que adentravam a sala e examinavam cuidadosamente o que se podia ver da casa, quase não enxergavam o defunto.

— Ela parece que tá dormindo – disse uma senhora aos presentes.

E as mães imprudentes entravam com suas crianças, já nojentas de tão mal-cuidadas, e faziam as infelizes mirarem a morta.

Os vizinhos se lembraram dos dentes de ouro da velha. Alvoroço na rua. Aqueles objetos eram, aos olhos daquela gente miserável, uma verdadeira fortuna. Andavam de um lado pro outro os moleques da rua. Até mesmo os marginais, desconhecidos da família, foram e assinaram o livro de visitas. Examinavam a morta.

– Cadê os dentes?
– Dá pra ver não, doido! Ela tá de boca fechada.

Sussurros entre os moradores e todos de conversa ao pé do ouvido sobre o destino da suposta fortuna. E a família já pensando no que faria. Enterrariam a velha com aquele dinheiro dentro da boca? Isso nunca. Loucura! A Almerinda nem bem esfriara e eles já queriam arrancar os dentes da pobre. Mas algo tinha que ser feito, pois a casa começou a lotar e, num instante, todos secavam a morta. A idéia de um roubo surgia na mente de cada uma daquelas pessoas ali presentes. Os marginais lá fora já estudavam a casa e, caindo a noite, a família da Almerinda se preocupava ainda mais, pois a droga do enterro só seria no dia seguinte. Pelos menos ficaram um pouco mais tranqüilos ao verem os visitantes começarem a se retirar:

– Que fique com Deus, que vá para o céu!
– Se merecer, né?

Soprava o vento com força em rajadas preocupantes. Aflitos, os netos, filhos e demais parentes meditavam no destino dos dentes de ouro. Barulho no telhado, um ranger das telhas passou despercebido e uma fresta de luz, vinda da imensa lua, penetrou na sala vazia de móveis. Um bandido! Outras telhas removidas e só então aquela gente percebeu: um invasor subiu cauteloso pelo telhado e investia na busca pelos dentes preciosos. Dinheiro! O infeliz tentou descer uma perna e foi enxergado pelo filho da morta. Seu João tratou de reconhecer e expulsar o invasor que, assustado, desequilibrou-se telhado abaixo e despencou no chão feito um par de gatos brigões. Safado! Denunciado e agredido por alguns moradores. Aquilo tudo era aflição demais. Seu João não ia passar uma noite inseguro daquele jeito. Correu na cozinha e calçou umas luvas descartáveis, correu na sala e se pôs de pé na frente do caixão. Disse:

– Eu vou arrancar seus dentes, mamãe.
– Tá louco João? – disse o prudente irmão Chico – Deixa os dentes da mamãe!
– Louco é tu, Chico! Tu num tá vendo, não? Daqui a pouco esse povo invade a casa e leva os dentes dela!

Apesar do apelo, ele continuou o intento e preparou-se gravemente para aquela precária cirurgia. Tocou com cuidado, mais com asco do que com medo, o corpo da velha. Tateou os lábios e os abriu. Avistou dois incisivos dourados e bem colocados, que brilhavam na arcada superior. Forçou a mandíbula e lutou contra a rigidez cadavérica.

– Solta, mamãe, abre a boca!

Forçou um pouco mais e abriu na marra a boca da Almerinda, a ponto de se fazer ouvir um estalo dos ossos da face, possivelmente a se quebrarem. Assustada, a família em volta contemplava perplexa a remoção dos dentes. Ele usou um alicate qualquer, quase tão velho quanto a morta, mas conseguiu o fruto de seu quase macabro empenho.

Saiu pela noite sem mostrar os objetos a ninguém. Pegou um táxi na avenida e o destino foi a casa de um alemão, que negociava ouro há muito tempo no Brasil. Mostrou-lhe as peças e tristemente saiu de lá com alguns meros reais. O dono da loja disse que não lhe podia pagar mais do que aquela droga de ninharia. Voltou pra casa sentindo-se ultrajado pelo terrível sacrifício. Olhou para a família e entregou para a mulher os trocados que conseguiu. Voltou-se para o caixão e ficou a olhar a pobre banguela da Almerinda: um defunto de boca torta e que parecia estar dormindo.

5 comentários:

Carlos Filho disse...

O loco! hehehehe
Belo texto!
Em breve o livro de Crônicas e Contos...hehehehe
Me fala quando lançar.

boO disse...

que massa...
nao a historia, mas a forma cm vc contou ^^
mt bom!

Cissa Teixeira Oliveira disse...

O tema é aparentemente horrendo, mas muito mais comum do que se imagina. No fim da vida, a velhinha decidiu fazer um agrado a si mesma. Nada mais justo. Acontece que o que move as outras personagens nos atos de vileza contra o cadáver da pobre velhinha é a avareza, coisa que a grande maioria das pessoas tem e nem percebe.

Gostei muito desse texto porque me fez refletir até que ponto o desejo de "aproveitar as coisas" ultrapassa os limites do razoável.

Quantas vezes as pessoas não se pegam desejando que um parente idoso bata as botas logo para deixar a herança? Quantas vezes não fazem favores esperando algo em retribuição? Quantas vezes não pechincham por centavos de diferença? Quantas vezes não passam necessidades com "dó" de gastar o que têm?

E tudo isso para quê? Para chegar ao fim da via e descobrir que o que não foi devidamente utilizado vai servir de alimento - ou isca - para os urubus.

Parabéns pelo texto! Como disse a Bruna, a maneira como vc escreveu a história a enriqueceu ainda mais! Créditos especiais para os diálogos, que foram muito bem formulaods e colocados!

Bjos pra vc!

Ciro M. Costa disse...

Concordo com a Boo. Realmente, vc tem um modo bem legal de contar uma história, cara.
Mas confesso que no final da história, eu pensei que a D. Almerinda ia levantar do caixão e sair correndo com seus dentes de ouro, hihihihihi!!!!

Só morte aqui hoje! O loko! Hhahahahah!!!
Grande abraço!

Thyago disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

rapaz...sei não..... adorei o texto... posso colocar no meu site? juro que ponho o link no texto...rs aliás, o link do site já está nos meus favoritos.... :-)